Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 20/10/2020
Segundo o “Princípio da maior felicidade” do filósofo utilitarista John Stuart Mill, uma atitude ética e correta é aquela que causa maior felicidade para o máximo de pessoas possível. Seguindo essa linha de pensamento, a doação de órgãos é algo que todos os cidadãos aptos deveriam efetuar após a morte, visto que diferentes partes do corpo podem ser doadas, gerando felicidade em muitas pessoas. Contudo, no Brasil há obstáculos para seguir esse princípio no processo de doação de órgãos, como a desigualdade e o individualismo, cenário que causa sofrimento e morte de milhares de brasileiros anualmente.
Em primeiro plano, há uma grande desigualdade de infraestrutura e de profissionais especializados em transplantes nas regiões brasileiras, o que reflete negativamente no número de cidadãos que têm acesso a esse tratamento. Segundo pesquisas, os centros especializados em transplantes estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste, por conta disso, apenas 12% dos transplantes no Brasil ocorrem no Norte e Centro-Oeste somados, enquanto mais da metade deles ocorre apenas no estado de São Paulo. Dessa maneira, os cidadãos dessas regiões do Brasil possuem as dificuldades na obtenção dos órgãos agravadas, pois seus estados não possuem a logística necessária para esse processo, e órgãos de outras regiões não conseguem ser encaminhados a tempo da cirurgia.
Em segundo plano, segundo o sociólogo Zigmunt Bauman, vivemos na época da “Modernidade líquida”, na qual as pessoas são individualistas e imediatistas, não pensando ou se importando com necessidades alheias, características que dificultam gestos altruístas como a doação de órgãos. A manutenção desse déficit no número de doações acarreta no sofrimento de muitos indivíduos, ao lidar com os diversos problemas de saúde que a falta ou mau funcionamento de um órgão pode ocasionar, colocando ainda mais pressão sobre o sistema público de saúde.
Portanto, para combater esse problema social, é necessário que o MEC, em parceria com universidades das regiões com menor percentual de transplantes, invista parte de sua verba na formação de profissionais especializados em transplantes, não apenas da área da saúde, como médicos, mas também os responsáveis pela logística. Dessa forma, com um maior número de profissionais, haverá menor desigualdade no acesso a esse recurso, com muito mais beneficiados. Além disso, cabe às escolas promover a abordagem do tema durante aulas de Biologia, Filosofia e Sociologia, a fim de transmitir a importância para a sociedade da doação de órgãos, combatendo o individualismo da “Modernidade líquida” e garantindo com que as próximas gerações tenham muitos doadores.