Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 20/12/2020

Na obra do escritor português José Saramago, “Ensaio sobre a cegueira”, publicada em 1995, retrata uma epidemia de cegueira (que não tem origem biológica), a qual faz alusão ao egoísmo e desprezo dos seres humanos. Mais de vinte anos depois, nota-se que o literário ideal está próximo da realidade brasileira, já que ainda há muita dificuldade para aumentar a doação de órgãos no país, ora pela omissão do Poder Público, ora pela negligência populacional. Dessa forma, é importante a exigência de mudanças dessa realidade por parte dos cidadãos.

A princípio, vale ressaltar que as primeiras experiências de transplante ocorreram na antiguidade, quando cirurgiões hindus faziam enxertos de tecidos para reparar mutilações. Entretanto, só após o ano de 1967 que ocorreu o primeiro êxito de transporte de órgãos. Nesse cenário, segundo o Ministério da Saúde, em decorrência da pandemia do Coronavírus (COVID-19), durante 2020, houve uma queda de 62% nas doações de órgãos no Brasil, em comparação com o ano anterior. Desse modo, é importante que o Governo Federal, junto com as escolas, assegure uma adequada educação sobre a importância do transplante de órgãos, para que assim diminua as dificuldades para a doação.

Além disso, é importante saliente que o Brasil é conhecido, mundialmente, como um povo alegre, bem receptivo e comunicativo com visitantes estrangeiros. Porém, a população do país é menos solidária com os seus semelhantes, pelo menos quando o assunto é doação de órgãos. Nesse contexto, de acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, os principais motivos para não ocorrer a doação são: a rejeição das famílias em doar e o desconhecimento sobre o assunto. Dessa maneira, essa realidade enfatiza e confirma o pensamento do filósofo Maquiavel, “Os preconceitos têm raízes mais profundas que os princípios”, pois, infelizmente, tais atitudes fazem com que muitas pessoas morram na fila de espera para receber o transplante de órgão.

É notável, portanto, que ainda seja muito persistente como dificuldades para aumentar as doações de órgãos no Brasil e medidas devem ser realizadas para amenizar essa problemática. Logo, o Governo Federal, junto com as escolas, deve promover palestras ministradas por profissionais especializados, por meio de aulas para discutir a importância dos órgãos. Ademais, o Ministério da Saúde, junto com a mídia, deve disponibilizar projetos, trabalhos, debates e campanhas públicas, como a “Setembro Verde”, por intermédio de profissionais como médicos, psicólogos e enfermeiros para auxiliar e informar a população sobre a importância do transplante de órgãos, a fim de diminuir as filas de espera e que mais vidas sejam salvas. Nesse sentido, uma sociedade resgatará o afeto e a esperança e não será mais “cega” como na obra de José Saramago.