Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 27/10/2020

A série “Grey’s Anatomy” da Netflix se passa nos Estados Unidos em um hospital particular, o qual demasiadas vezes é impedido de executar processos de transferência de órgãos, após a morte encefálica do paciente, haja vista que não há a autorização dos seus respectivos parentes. Logo, a ficção se assemelha com o século XXI ao retratar assuntos da doação de órgãos no Brasil. Isso ocorre devido a negativa familiar. Outrossim, a desigualdade social torna a discussão mais profunda. Primordialmente, as permissões parentescas têm aumentado ao longo dos anos, porém não são suficientes para atender a demanda. Análogo à isso, em 2017, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, 43% das famílias recusaram a distribuição do organismo do parente cerebralmente falecido, em razão do receio de prejudicar a imagem do corpo, para ser velado ou cremado. Todavia, infelizmente, deixam de lado a possibilidade de salvarem ao menos uma pessoa receptora, contrariando a instituição do direito a vida, descrito na Constituição Federal de 1988. Nesse viés, nota-se, na atualidade, que o momento de tristeza em meio aos parentes, relacionada com a paralização dos sistemas vitais do seu familiar, geralmente resulta na negação de contribuir com a recuperação de novas vidas. Equiparavelmente, é válido ressaltar as discrepantes diferenças financeiras no país, que provocam, nas camadas mais pobres, a falta de informações e os oferecimentos de infraestruturas precárias. Nesse sentido, para o geógrafo brasileiro, Milton Santos, a globalização, que o mundo presencia tem um papel excludente, o qual taxas de marginalização aumentam com uma velocidade exorbitante, provocando altos níveis de desconhecimento em pautas direcionadas, por exemplo, à saúde. Consequentemente, regiões com elevados índices de pobreza, como a região Norte do país, não contém um banco de órgãos e tecidos para atender a população, portanto, mesmo que haja a aprovação dos procedimentos, o item acaba sendo desperdiçado. Sob o mesmo ponto de vista, no Brasil atual, a pouca quantidade de polos para transplantes, somado com o número de cidadãos de baixa renda e carentes de informação, geram o óbito de pessoas, que estão na fila de espera para uma segunda chance de viver. Em suma, faz-se necessário uma tomada de melhoramento quanto aos obstáculos para a transplantação de órgãos na sociedade brasileira. De fato, o Ministério da Saúde deve acessibilizar informações sobre as doações, por metodologias como a criação de palestras itinerantes destinadas, principalmente, as regiões mais carentes, mas também, que outras camadas tenham o devido conhecimento, com o fito de estimular a aprovação parentesca. Bem como, o Ministério da Infraestrutura tem que facilitar os processos da distribuição de organismos, a partir da construção de bancos de tecidos distribuídos ao longo do território nacional.