Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 28/10/2020

Apesar da obra Ilíada, de Homero, descrever o transplante de tecidos geneticamente diferentes, foi somente após a Segunda Guerra Mundial que o transplante de um órgão humano vital obteve sucesso. Atualmente, porém, o desinteresse da população quanto à doação de órgãos é um imbróglio presente no Brasil e tem como consequência o agravamento de doenças de quem está na fila de espera.

Em primeiro lugar, é necessário destacar que a sociedade não debate o tema com sua devida importância. De acordo com o sociólogo Zygmunt Bauman, atualmente os indivíduos estão preocupados em buscar o prazer e sucesso individual, abdicando a concepção de bem-estar da coletividade. Nesse viés, a problemática da doação de órgãos relaciona-se com a tese do sociólogo polonês ao analisarmos que o ato do transplante é uma ação altruista, feita com o intuito de ajudar o próximo e colaborar com o ambiente social. Entretanto, em uma sociedade individualista, percebe-se que a doação é prejudicada devido ao desinteresse em discutir a questão com antecedência. Assim, a família do falecido não tem conhecimento sobre seu desejo quanto o destino de seus tecidos, o que obriga os familiares a tomarem uma decisão delicada em um momento de fragilidade como o luto.

Outrossim, é necessário abordar as implicações geradas pelos baixos índices de doadores. A obra “O Cidadão de Papel”, do jornalista Gilberto Dimenstein, defende que os direitos do cidadão brasileiro se restringem tão somente à forma de lei, usufruindo de uma cidadania aparente. Dessa forma, o direito constitucional à saúde é prejudicado devido às grandes filas de espera por órgãos no SUS. Isso se evidencia obsevando-se casos de pessoas com doenças graves, em que quanto maior a espera pela cirurgia, mais a doença progride. Devido a isso, as consequências podem chegar ao extremo e provocar a morte do enfermo. Entretanto, embora os indíces de operações realizadas ainda serem baixos, esse cenário é mutável e está em constante evolução.

Destarte, é mister que medidas sejam tomadas para mitigar essa problemática. O Ministério da Saúde, em conjunto com a mídia, deve ampliar as campanhas de transplante de órgãos, visando atingir o maior número possível de pessoas e fomentar o debate e o diálogo sobre o problema entre a população. Isso pode ser feito, por exemplo, com a exibição de anúncios na TV, rádio e jornal, alertando que todo cidadão pode, um dia, salvar uma vida com a atitude de ser um doador.. Ademais, empresas privadas como o Google também podem aderir às campanhas, incentivando que criadores de conteúdo no YouTube façam vídeos explicando e divulgando a questão, para que assim todas as faixas etárias sejam atingidas. Com essas medidas sendo tomadas, muitas vidas poderiam ser salvas com ações altruístas dos indivíduos.