Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 20/11/2020
A série norte-americana “The Good Doctor”, explana os entraves que circundam os transplantes de órgãos nos Estados Unidos, tendo em vista a busca incessante da médica Claire por um coração para um paciente terminal. Fora da ficção, no Brasil, tal enredo também se configura, principalmente, devido à carestia de doadores cadastrados e de equipamentos propícios à preservação de órgãos, delimitando os transplantes. Isto posto, vidas passíveis de serem salvas são perdidas, seja pela desinformação da sociedade acerca da doação de órgãos, seja pela falta de infraestrutura hospitalar.
Primeiramente, cabe mencionar a carência de informações sobre as possibilidades e métodos das doações de órgãos. Desse modo, a teoria platônica define que os homens estão presos a ideias baseadas na verdade, sendo, portanto, dotados de uma ilusão do real. Analogamente, a sociedade entende a doação de órgãos com base em ideias ultrapassadas, nas quais, quando realizada após a morte, o defunto seria violado drasticamente e, baseado em crenças religiosas, desprovido de um pós-morte adequado; e quando em vida, a pessoa teria sua saúde fragilizada e posta em risco. Assim, tais inverdades escondem a fascinante benevolência e seguridade que doar órgãos traz consigo e, consequentemente, fomentam o desinteresse populacional em aderir a essa prática que detém grande significância para os pacientes que necessitam de transplantes.
Ademais, além da desinformação social, vale ressaltar o descaso estatal ao garantir uma saúde pública de qualidade que viabilize a execução de procedimentos cirúrgicos complexos, como os transplantes de órgãos. Nesse sentido, a Constituição de 1988 define como dever governamental a manutenção de uma infraestrutura hospitalar adepta às inovações científicas na área de saúde. No entanto, o déficit em equipamentos propícios ao armazenamento de órgãos doados, a carência de profissionalização e de serviços de transporte dessas estruturas vitais, torna inviável a realização de transplantes, haja vista a fragilidade e a complexidade que corações, rins, pulmões e córneas apresentam. Logo, o Estado possui papel fundamental no uso eficaz de órgãos doados, uma vez que de nada adianta a empatia humana quando se carece de base para o exercício de transplantes.
Urge, pois, que medidas sejam tomadas para tornar a doação de órgãos uma prática frequente no Brasil. Portanto, cabe ao Ministério da Saúde realizar um projeto que reúna investimentos estatais, em hospitais, com propagandas que incentivem a população a ser doadora. Assim, por meio de verbas para a compra de equipamentos requisitados para a proteção devida de órgãos e de uma campanha que divulgue a importância de ser um doador e a segurança de tal prática, tornar-se-á viável uma adesão em massa de pessoas ao banco de órgãos e a preservação de muitas vidas terminais.