Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 03/12/2020
Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, diz em suas “Memórias Póstumas” que não teria filhos, a fim de nunca ter de esclarecer os legados das misérias humanas para ninguém. Analogamente, a negligência governamental e a falta de conhecimento enquadram-se no posicionamento do personagem, uma vez que constituem desafios da humanidade a serem superados para mitigar os dilemas da doação de órgãos. Assim, para alterar essa situação, é necessário discutir os aspectos governamentais e educacionais da questão, em prol do bem-estar social.
Em primeiro plano, a negligência do Estado é a principal responsável por esse imbróglio. De acordo com o filosofo Jean-Jacques Rousseau, em sua teoria do contrato social, afirmou que é necessário um poder político legítimo, efetivamente comprometido com as causas sociais. No entanto, é evidente o rompimento desse contrato no que concerne ao problema das doações de órgãos, visto que existe uma reduzida atuação do Estado em busca de conscientizar a população sobre a importância da doação, que o torna o principal limitador para um aumento mais significativo das doações. Assim, é notório a ineficiência estatal, por exemplo no que se refere a falta de campanhas públicas para garantir que as pessoas entendam a necessidade e se disponham a ser doadores.
Outrossim, a falta de conhecimento colabora para perpetuação dessa mazela. Nesse sentido, o filósofo Schopenhauer defende que os limites do campo de visão de uma pessoa determinam seu entendimento a respeito do mundo. De forma análoga a esse pensamento, o atual cenário brasileiro se encontra com sua visão reduzida, pois ainda existe estigma à respeito da doação, por exemplo, há pessoas que acreditam que se doarem não vão preserva o espirito, com uma visão guiada pelos dogmas religiosos, outras temem contrair alguma doença infecciosa durante a coleta. Nessa pespectiva, a sociedade evolui à medida em que se aperfeiçoa a educação, é preciso desfazer esses mitos e informar a população sobre os benefícios da doação, pois é a partir do conhecimento que o cidadão se torna ciente do seu papel como agente ativo na sociedade.
Portanto, é necessário que as prefeituras, em parceria com o governo do estado, proporcionem a criação de oficinas educativas, a serem desenvolvidas nas semanais culturais dos colégios estaduais, por meio de atividades práticas, como dramatizações, dinâmicas e jogos, de modo a proporcionar incentivo à doação, que sejam feitas desde os primeiros anos de vida e que o assunto seja discutido para reverter o atual cenário, com orientação para os jovens e suas famílias, com embasamento científico, a fim de efetivar a elucidação da população sobre esse tema. Só assim, os brasileiros se tornarão mais conscientes, aproximando-se do bem-estar social de Rousseau.