Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 30/11/2020

No seriado médico “Grey’s Anatomy”, da roteirista Shonda Rhimes, é retratado os dilemas da doação de órgãos, e apresenta as várias dificuldades que um paciente precisa passar para ter sua vida, ou a melhoria dela, garantida. Nesse contexto, o sistema de doação de órgãos no Brasil se assemelha à ficção, e encontra diversos obstáculos para que a vida de milhares de pessoas seja assegurada. Esse cenário preocupante é fruto tanto da recusa familiar, quanto da frágil estrutura hospitalar brasileira. Diante disso, torna-se fundamental a discussão desses aspectos, a fim do pleno funcionamento desse sistema tão importante.

Cabe mencionar, em primeira instância, a negação familiar como ponto relevante à temática. Quanto a isso, sabe-se que embora muitas pessoas manifestem à família o desejo de doar órgãos, em grande parte, essa vontade não é cumprida. Nessa perspectiva, uma das razões para a recusa dos parentes em doar é a falta de conhecimento acerca do óbito encefálico, ou seja, a família não reconhece a irreversibilidade da morte, e, consequentemente, não permite o processo de retirada dos órgãos. Nesse cenário, dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) indicam que a negativa familiar é um dos principais motivos para que um órgão não seja doado no Brasil, sendo 43% o total de famílias que não autorizam a doação. Diante disso, é notável os dilemas que essa postura gera no desempenho das doações de órgãos no país em questão.

Ademais, a má estruturação dos hospitais no Brasil é outro fator que intensifica o impasse. Nesse sentido, observa-se que a maiorias desses locais não oferecem o suporte necessário para que a doação seja efetivada, visto que muitos órgãos são desperdiçados devido à má conservação e da falta de equipamentos necessários para o transplante. À vista disso, conforme o filósofo contratualista Thomas Hobbes, é dever do Estado assegurar a vida dos indivíduos. Sob tal ótica, nota-se que esse dever não tem sido cumprido, haja vista o grande número de doações que não são efetivadas devido a falhas estruturais. Dessa forma, é urgente a atuação do serviço público na área da saúde para que o processo de doação de órgãos não mais encontre dificuldades para ser concretizado.

Fica claro, portanto, que medidas são necessárias para a resolução da problemática. Dessa maneira, compete ao Ministério da Saúde, mediante à atuação da mídia, promover campanhas informativas acerca da doação de órgãos, a fim sanar as dúvidas da população sobre esse processo e promover uma maior aceitação familiar. Outrossim, o Estado, por meio de verbas governamentais, deve investir na melhoria da infraestrutura hospitalar, com intuito de garantir que os transplantes sejam efetivados, e, assim, garantir o direito à vida dos cidadãos, afirmado por Thomas Hobbes.