Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 03/12/2020

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil é referência mundial na área de transplantes de órgãos e tecidos e é o 2º maior transplantador do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Diante disso, nota-se que, apesar de o país estar entre o maiores transplantadores mundiais, ele ainda não conseguiu superar a meta proposta pela Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), que é de 16,5 doadores efetivos por milhão de habitantes. Tal fato demostra que a doação de órgãos no Brasil é um grave problema, que é causado pela falta de comunicação entre possíveis doadores e suas famílias e pelo individualismo que perdura à espécie humana, o que acarreta no sofrimento e na morte de milhares de brasileiros todos os anos.

Inicialmente, um entrave é a ausência de diálogo que envolve as pessoas passiveis de doação no futuro e seus parentes, em decorrência  de a transferência de partes do organismo ainda ser um tabu na sociedade. De fato, tal situação é confirmada por uma pesquisa realizada pela ABTO, a qual diz que 43% das famílias se recusam a autorizar transplantes de seus entes falecidos. Somado a isso, o egocentrismo presente na mentalidade das pessoas contribui para formação de um país não solidário, que se relaciona a ideia de “Modernidade Líquida” trazida pelo sociólogo Zygmunt Bauman, que diz que o individualismo e o imediatismo dificultam os gestos mais altruístas das pessoas. Nesse contexto, percebe-se que o principal agente transformador da situação é o próprio individuo e que ele deve ser o pioneiro em tomar a decisão de ser um futuro doador de órgãos, de maneira a salvar diversas vidas.

Por conseguinte, o não cumprimento dos objetivos decretados pela ABTO conduz à dor e ao falecimento de muitas pessoas anualmente. De acordo com o Ministério da Saúde, atualmente, 45 mil cidadãos esperam por transplantes de órgãos no Brasil. Nesse cenário, nota-se que é alarmante o número de indivíduos que estão na fila de espera e que consequentemente, pelo baixo número da ocorrência de transplantes, virão a ter um possível falecimento. Isso demostra que há uma urgente necessidade de incentivar a formação de uma sociedade cooperadora, em que o transplante de órgãos, após a morte, seja algo indiscutível e natural.

Portanto, é mister que o Estado tome providências para amenizar o quadro atual. Para a conscientização e formação de uma nova mentalidade da população brasileira, urge que o Ministério de Educação e Cultura (MEC) introduza, por meio de alterações na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), nas escolas a abordagem do tema, através das disciplinas de Biologia, Sociologia e Geografia, com vistas a descontruir a imagem de tabu dada ao transplante de órgãos, bem como incentivar a empatia e o altruísmo nos futuros cidadãos brasileiros.