Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 04/12/2020

Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, diz em suas “Memórias Póstumas” que não teria filhos, a fim de nunca ter de esclarecer os legados das misérias humanas para ninguém. Analogamente, a negligência governamental e a falta de conhecimento enquadram-se no posicionamento do personagem, uma vez que constituem desafios da humanidade a serem superados para mitigar os dilemas da doação de órgãos. Assim, para alterar essa situação, é necessário discutir os aspectos governamentais e educacionais da questão, em prol do bem-estar social.

Em primeiro plano, a falta de conhecimento é principal responsável por esse imbróglio. Nesse sentido, o filósofo Schopenhauer defende que os limites do campo de visão de uma pessoa determinam seu entendimento a respeito do mundo. De forma análoga a esse pensamento, nota-se que o atual cenário brasileiro se encontra com sua visão reduzida, pois ainda existe estigma a respeito da doação, por exemplo, há pessoas que acreditam que se doarem não vão preservar o espirito, em um visão dogmática religiosa, outras temem contrair alguma doença infecciosa durante a coleta. Nessa pespectiva, a sociedade evolui à medida em que se aperfeiçoa a educação, é preciso desfazer esses mitos e informar a população sobre os benefícios da doação, pois é a partir do conhecimento que o cidadão se torna ciente do seu papel como agente ativo na sociedade.

Outrossim, a negligência do Estado colabora para a perpetuação dessa mazela. De acordo com o filósofo Rousseau, em o “contrato social”, é necessário um poder político legítimo, comprometido com as causas sociais. No entanto, é evidente o rompimento desse contrato, visto que existe uma reduzida atuação do Estado em busca de conscientizar a população sobre a importância da doação, seja pela baixa infraestrutura de coleta adequada, seja pela falta de campanhas públicas voltadas para o esclarecimento do tema, que o torna, assim,  o principal limitador para um aumento mais significativo das doações. E para provar isso, basta analisar os dados da pesquisa da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) que mostram que 43% das famílias recusam a doação de órgão.

Portanto, é necessário que as prefeituras, em parceria com o Ministério da Educação, proporcionem a criação de oficinas educativas, a serem desenvolvidas nas semanas culturais dos colégios estaduais, por meio de atividades práticas, como dramatizações, dinâmicas e jogos, de modo a proporcionar incentivo à doação, que sejam feitas desde os primeiros anos de vida e que o assunto seja discutido para reverter o atual cenário, com orientação para os jovens e suas famílias, com embasamento científico, a fim de efetivar a elucidação da população sobre as doações. Só assim, os brasileiros se tornarão mais conscientes, aproximando-se do bem-estar social de Rousseau.