Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 05/12/2020
Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, diz, em suas “Memórias Póstumas”, que não teria filhos, a fim de nunca ter de esclarecer os legados das misérias humanas para ninguém. Analogamente, a negligência governamental e a falta de conhecimento enquadram-se no posicionamento do personagem, uma vez que constituem desafios da humanidade a serem superados para mitigar os dilemas da doação de órgãos. Assim, para alterar essa situação, é necessário discutir os aspectos governamentais e educacionais da questão, em prol do bem-estar social.
Em primeiro plano, a falta de conhecimento é principal responsável por esse imbróglio. Nesse sentido, o filósofo Schopenhauer defende que os limites do campo de visão de uma pessoa determinam seu entendimento a respeito do mundo. De forma análoga a esse pensamento, nota-se que o atual cenário brasileiro se encontra com sua visão reduzida, pois, de acordo com Valter Duro Garcia, médico responsável da Santa Casa de Porto Alegre, a morte encefálica – requisito para que seja doados os órgão - é um processo irreversível e muitas pessoas ainda acreditam que o paciente pode se recuperar, ou que seus órgão devem ser preservados após , em uma visão dogmática religiosa. Nessa pespectiva, é preciso desfazer esses mitos e informar a população, pois é a partir do conhecimento que o cidadão se torna ciente do seu papel como agente ativo na sociedade.
Outrossim, a negligência do Estado colabora para a perpetuação dessa mazela. De acordo com o Rousseau, em sua teoria do contrato social, é necessário um poder político legítimo, comprometido com as causas sociais. No entanto, há o rompimento desse contrato, visto que existe uma reduzida atuação desse em busca de conscientizar a população sobre a importância da doação pela falta de campanhas públicas voltadas para o esclarecimento do tema que o torna o principal limitador para um aumento mais significativo das doações. Em consequência disso, segundo os dados da pesquisa da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) que mostram que 43% das famílias recusam a doação de órgão, demonstrando a imprescindibilidade de políticas públicas que reverta essa problemática.
Portanto, é necessário que o Ministério da Educação, em parceria com as prefeituras, proporcione a criação de oficinas educativas, a serem desenvolvidas nas semanas culturais dos colégios estaduais, por meio de atividades práticas, como dramatizações, dinâmicas e jogos, de modo a proporcionar incentivo à doação. Tais atividades devem ser feitas desde os primeiros anos de vida, com orientação para os jovens e suas famílias, com embasamento científico, a fim de efetivar a elucidação da população sobre as doações e construir um doador do futuro. Só assim, os brasileiros se tornarão mais conscientes, aproximando-se do bem-estar social de Rousseau.