Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 09/12/2020

O clássico filme da década de 80 - “Blade Runner” - se passa em um futuro distópico no qual  as pessoas têm a possibilidade de estender suas expectativas de vida por meio de implantes robóticos. Analogamente, há hoje no Brasil a possibilidade de se fazer algo parecido mediante o transplante de órgãos. No entanto, diferente do que ocorre na película, esses bens não são fabricados ou vendidos, é necessário alguém que os ceda. Atualmente, o Brasil é um dos países que mais realiza cirurgias de transplantação no mundo. Todavia, o índice de doadores não é suficiente para atender a demanda. Diante desse impasse, é necessário discutir  as causas e as consequências dessa falta de colaboradores.

Em primeiro plano, cabe destacar a recusa das famílias, que são as responsáveis pela doação no caso de um falecimento. Isso ocorre, pois segundo a ABTO (Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos), existem poucas equipes de médicos, enfermeiros e psicólogos especializadas nesse quesito. Ana Paula, mãe de um menino de 12 anos e doador, disse no documentário “Anjos da Vida” que se não fosse o tratamento humanizado que recebeu da equipe do Hospital das Clínicas da Unicamp, ela não teria doado os órgãos e tecidos de seu filho. Em vista desse caso, é possível perceber o impacto, que os grupos voltados para o acolhimento e conscientização da família, podem ter sob as taxas de doadores efetivos.

Adicionalmente, a burocracia no diagnóstico de morte cerebral - quando os órgãos continuam em funcionamento, porem o cérebro perde suas funções - é outro fator que contribui para a baixa proporção de doações. Segundo o Médico Luiz Sardinha, o atestado é mais demorado que o necessário: ez preciso de dois neurologistas, especialistas que nem sempre estão de plantão ao mesmo tempo. Consequentemente, por conta da demora e da indisponibilidade, o órgão que antes estava saudável para o transplante, se torna inapto para cirurgia.

Diante do discutido, nota-se as razões e os impactos da baixa porcentagem de doadores de órgãos  e tecidos no Brasil. Nesse sentindo, é necessário que o Ministério da Saúde fomente a doação de órgãos no país. Isso pode ser feito por meio da ampliação das equipes como a SPOT (Serviço de Procura de Órgãos e Tecidos) de Campinas, fazendo com que haja pelo menos um grupo especializado por hospital no Brasil. É importante também, desburocratizar o sistema de diagnósticos, que pode ser realizado mediante a aprovação de uma lei que não exija a presença de dois especialistas da mesma área. Para que, dessa forma, haja uma redução na rejeição dos parentes e um aumento na taxa de transplantes efetivos. Assim, o que antes era ficção científica poderá, de fato, se tornar realidade.