Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 30/12/2020
Na obra “Utopia”, do escritor inglês Thomas More, é retratada uma sociedade perfeita, cujo corpo social padroniza-se pela ausência de conflitos e desequilíbrios sociais. Todavia, o que se observa na realidade contemporânea é o oposto do que o autor prega, visto que a doação de órgãos apresenta diversas barreiras, as quais dificultam a concretização dos planos de More. Diante disso, não somente a falta de infraestrutura hospitalar, como também a falta de cooperação por parte da família do doador são contribuintes para a permanência deste cenário antagônico no Brasil. À vista disso, é fulcral a discussão desses aspectos a fim do pleno funcionamento da sociedade, tanto na atualidade quanto ulteriormente.
Vale destacar, inicialmente, a ineficácia da ação pública em prover infraestutura hospitalar. Sob esse viés, a elaboração da Constituição Cidadã, há 32 anos, baseou-se na concepção de que é dever público manter e zelar efetivamente por condições dignas no que concerne à segurança e, sobretudo, saúde. Entretanto, percebe-se que a realidade prática diverge da teoria magna, uma vez que dados da Universidade Federal de São Paulo trazem que cerca de 19% da recusa famíliar está relacionada, intrinsecamente, à falta de competência técnica da equipe hospitalar e infraestrutura. Tal realidade, consequentemente, nega prerrogativas constitucionais basilares.
Ademais, é imperativo ressaltar a ausência da disseminação de informação acerca da doação de órgãos como importante causa de tal conjuntura. Assim sendo, a sociologia moderna define a tomada de posturas passivas e acríticas diante de situações relevantes como fruto da alienação e da ignorância. Sob essa ótica, o sociólogo francês Émile Durkheim defende que o indivíduo só poderá agir na medida em que aprender a conhecer o contexto em que está inserido, a saber quais são suas origens e as condições de que depende. Nessa perspectiva, o desconhecimento da realidade em que está inserido e dos impactos práticos de sua instabilidade induz ao negacionismo e ao sentimento apático, contribuindo com a permanência deste cenário temerário de discrepância social. Logo, faz-se mister o reconhecimento deste quadro deletério.
Infere-se, portanto, que medidas exequíveis são necessárias para mitigar os dilemas das doações na sociedade brasileira. Em virtude disso, é imprescindível que o Poder Executivo direcione capital que, por intermédio do Ministério da Educação e do Ministério da Saúde, será revertido, não só na criação de propagandas informativas, mas também na melhoria da infraestrutura dos hospitais no país. Com o fito de minimizar os fatores condicionantes dessa realidade nocente. Destarte, a coletividade alcançará a “Utopia” de More.