Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 03/01/2021

Todo paciente com morte cerebral decretada, ou seja, uma lesão irrecuperável no encéfalo, torna-se um potencial doador de órgãos. Por sua vez, a doação depende de uma decisão da família. No episódio 3 da primeira temporada da série Grey’s Anatomy, após uma longa conversa com a médica responsável pelo caso, a esposa do paciente Kevin Davison decidiu por doar seus órgãos para dar um significado à perda de seu marido. Contudo, na realidade, muitas vezes, as famílias se negam a doar. Neste contexto, a negação parte, principalmente, da ineficácia existente no diálogo com a equipe médica. Além disso, a falta de infraestrutura hospitalar inviabiliza uma mudança significativa na organização de um sistema de doação de órgãos eficiente.

Em primeiro plano, é importante ressaltar que a doação de órgãos e tecidos, apesar de ser vista como um ato de solidariedade, exige a tomada de decisão por pessoas envolvidas pela  dor e angústia geradas no impacto da notícia da morte. Nesse contexto, a negativa familiar é um dos principais motivos para que um órgão deixe de ser doado no Brasil. Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), 43% das famílias recusam-se a assinar o termo de conssentimento após comprovação de morte encefálica. Partindo desse pressuposto, observa-se que essa grande resistência advém de uma educação em saúde tecnicista, na qual pouco se ensina os profissionais a lidarem de maneira qualificada e humanizada com as dúvidas das famílias.

Ademais, cabe destacar a precariedade na infraestrutura do sistema público de saúde brasileiro como um empecilho para o aumento do número de transplantes. Nessa lógica, a manutenção do doador em condições adequadas de avaliação clínica é de extrema importância para garantir a qualidade dos órgãos. Contudo, no Brasil, muitos pacientes que deveriam ser acompanhados na Unidade de Terapia Intensiva são colocados em salas improvisadas por falta de vaga. Émile Durkheim afirmou que é papel das Instituições manter um estado harmônico com os indivíduos para avançarem em conjunto para o desenvolvimento da sociedade em todos os âmbitos.

Infere-se, portanto, que se faz necessário adotar medidas para consolidar um maior número de doadores de órgãos no Brasil. Cabe ao Ministério da Saúde incorporar campanhas nos hospitais de todo país, direcionadas para médicos e enfermeiros, com o fito de disponibilizar informações sobre conceitos básicos de morte encefálica e aspectos éticos em relação à postura diante da família e refinar o diálogo. Cabe ao Governo Federal, aumentar os investimentos para o desenvolvimento dos hospitais públicos, de centros hospitalares especializados, inicialmente, nas principais regiões doadoras a fim de aumentar o número de leitos em UTI e garantir órgãos mais compatíveis e funcionais aos receptores.