Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 03/01/2021
Carlos Drummond de Andrade, em seu poema “No meio do caminho”, retrata o percurso de uma pedra presente em sua trajetória. Embora o contexto do poema do contista não tenha sido escrito sob o viés social, percebe-se um alinhamento com a realidade brasileira, no que tange à doação de órgãos, que atualmente ainda enfrenta empecilhos. Nesse sentido, este é um notório problema social que persiste sem solução, à custa do individualismo social e da falta de estrutura hospitalar adequada.
Primeiramente, é imprescindível destacar o “Liquidismo Baumoniano” visivelmente presente na sociedade hodierna. Nessa perspectiva, para o filósofo polonês Zygmunt Bauman, vive-se em uma sociedade individualista, a qual não se importa com os relacionamentos interpessoais ou problemas alheios. Sendo assim, os mártires desse flagelo social, fruto da falta de empatia humana, são os pacientes que aguardam em uma extensa fila de espera, à medida que, infelizmente, poucas famílias se dispõem ou demonstram interesse em doar os órgãos após o falecimento. Isso prova o preconceito enrustido e o descanso frente à essa questão.
Ademais, nota-se que o descaso do Estado é uma das causas mais nocivas da questão. Nesse sentido, Oscar Wilde, célebre escritor irlandês, defendeu, em suas obras, a ideia de que o primeiro passo é o mais importante na evolução de uma nação. Entretanto, o atual cenário, em relação à doação de órgãos, contrária a ideia de Wilde, uma vez que não há nenhuma ação em curso que vise solucionar os impasses trazidos pela questão, como a escassez de estrutura no âmbito hospitalar, que não são capazes de oferecer ou suprir os trâmites necessários, desde a chegada do órgão até a disposição de uma equipe para a realização da cirurgia. Desse modo, faz-se mister a mudança desse cenário de desrespeito às garantias sociais.
Portanto, fica evidente a necessidade de intervenção ao que se refere a questão da doação de órgãos no Brasil. Para tanto, o Ministério da Saúde, órgão administrativo responsável pela manutenção do sistema de saúde brasileiro, deve destinar maiores verbas aos hospitais públicos, por meio do rearranjo orçamentário anual a fim de combater a precarização do ambiente hospitalar com a contratação de profissionais capacitados e equipamentos adequados a situação. Além disso, é fulcral que a população atente-se a importância da doação de órgãos, logo, os canais midiáticos e sociais do governo devem difundir de forma mais assídua sobre esse assunto além de promover discussões produtivas para o incentivo da doação de órgãos no país. Assim, construir-se-á um ambiente favorável para a resolução deste cenário e, dessa forma, a questão deixará de ser uma pedra no caminho da sociedade.