Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 08/01/2021

“O show tem que continuar” é um trecho marcante do cantor Arlindo Cruz, estimulando à necessidade de seguir em frente diante de situações adversas da vida. Entretanto, em se tratando de transplantes de orgãos no Brasil, há impasses quanto ao número de doações, que não permitem que o show da vida, como propõe o trecho supracitado, continue. Nesse sentido, a desinformação e a negativa de membros da sociedade perpetuam a problemática.

Em primeiro lugar, a desinformação por parte das pessoas referente à morte encefálica se mostra como fator que precisa ser superado. Consequentemente, a desinformação leva à insensibilidade, já que, sem entender que a inatividade cerebral é irreversível, as famílias recusam permissão para que a doação de orgãos a pacientes em lista de espera aconteça. Desse modo, vale mencionar que somente pelo debate, como defendido pelo filósofo Sócrates, é possível alcançar um denominador comum benéfico, reduzindo, assim, o grau de desinformação no corpo social.

Outrossim, o “mito da caverna” de Platão, que se trata da ilusão de alguns indivíduos diante de projeções da realidade, pode representar, a efeito de exemplo, a negativa dos membros da família de morte cerebral quanto a irreversibilidade acima mencionada. Nessa ótica, o efeito da negativa impossibilita a continuação da vida para aqueles que precisam de um transplante. Dessa forma, essa negativa familiar precisa ser contornada no intuito de trazer à razão, sem perder o respeito ao luto de outrem, os que se recusam a entender que, infelizmente, o que é um fim definitivo para um pode ser um recomeço para outro.

Destarte, infere-se a necessidade de incentivo e debate acerca dos dilemas em torno de transplantes de orgãos no Brasil. Para tanto, o Governo deve produzir campanhas informativas periódicas quanto a informações científicas acerca da condição de morte encefálica, a fim de mitigar a desinformção das pessoas sobre a questão. Ademais, as próprias famílias poderiam, com o incentivo das campanhas, trazer à tona o debate em relação a decisão de seus membros de serem doadores, fazendo assim com que o número de transplantes atenda às demandas. Garantindo, portanto, que o show da vida continue, como na canção de Arlindo Cruz.