Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 14/01/2021
A obra “De Coração Para Coração”, escrita por Lurlene McDaniel, conta a história de Arabeth, que passou seus 16 anos na fila de espera para um transplante de coração, e teve sua vida transformada quando uma doadora apareceu. Fora da ficção, no entanto, muitas pessoas que passam pela fila de espera não saem dela como a personagem, devido aos desafios relacionados à doação de órgãos, o que configura um grave problema. Sobre essa ótica, fatores como a falta de informação e de diálogo, bem como a precariedade estrutural de hospitais, devem ser analisados e solucionados.
Diante disso, torna-se fulcral observar como a incompreensão populacional sobre o que consiste a morte encefálica, e a falta de debate sobre a doação de órgãos, atuam de modo a influenciar na decisão familiar no momento de decidir doar. Nesse sentido, esse pouco entendimento faz com que os parentes do potencial doador tenham a esperança de sua recuperação, dado que o coração ainda está batendo, mesmo que apenas por meio dos aparelhos. Sobre esse prisma, percebe-se que a falta de informação impossibilita a realização de transplantes, o que também se dá pelo fato da morte ser considerada um tabu social, que impede um diálogo aberto no seio familiar em que o sujeito exponha livremente a sua decisão de se tornar um doador. Tal fato, vai de encontro aos ideais utilitaristas, sobretudo ao “Princípio da Maior Felicidade”, ação moral que maximiza felicidade para o maior número de pessoas, visto que muitas pessoas sofrem por isso.
De modo complementar, vale pontuar como a carência do sistema de saúde opera de forma agravante sobre a questão. Sob esse prisma, segundo o Ministério da Saúde, o Brasil possui o maior sistema público de transplantes do mundo, sendo 90% desses procedimentos realizados pelo SUS (Sistema Único de Saúde), no entanto, a lista de espera ainda é grande, se comparada ao número de doadores. Frente a isso, além da negativa familiar, a precariedade estrutural também apresenta-se como importante fator influenciador para esse descompasso, tendo em vista a pouca quantidade de profissionais especializados na área e a falta de equipamentos nos hospitais, que inviabilizam a conservação e o transporte dos órgãos, bem como a rápida execução do procedimento.
Em suma, com objetivo de diminuir os altos índices de negativas familiares e conscientizar a população, o Ministério da Saúde, em parceria com a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos, deve promover campanhas que instruam a população acerca da importância da doação de órgãos e sobre as os procedimentos que confirmam e caracterizam a morte cerebral, por meio de propagandas digitais e televisivas que contem com profissionais da área e que sejam apresentadas em horários nobres para uma maior cobertura, de modo a mostrar a importância desse ato para a vida de outras pessoas. Ademais, o Poder Público deve destinar mais investimentos para preparação de equipes especializadas em transplantes, bem como de equipamentos para a realização dessa prática, por intermédio de uma reformulação na Lei Orçamentária, a fim de otimizar o sistema de saúde pública e garantir um melhor atendimento à população, respeitando, então o “Princípio da Maior Felicidade”.