Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 13/01/2021

A obra cinematográfica “Uma prova de amor” relata a história de duas irmãs: Kate e Anna. A primeira nasce com diversos problemas de saúde e por não encontrarem nenhum doador compatível com a filha, seus pais, recorrem à métodos ortodoxos e dão a luz à Anna, um bebê de proveta. Fora da ficção, devido à falta de esclarecimento e conscientização por parte do Estado e da mídia, situações semelhantes a de Kate são bastantes comuns no cotidiano brasileiro - tendo em vista as gigantes filas de espera para receber algum órgão. Tal fato fere os direitos à vida e à saúde, previstos pela Constituição Federal de 1988.

Em primeiro lugar, é necessário ressaltar que o número restrito de doadores ocorre devido a negligência Governamental e dos meio de comunicação em massa em esclarecer os “tabus” sobre o assunto. Nesse sentido, Goethe, um grande polímata alemão, descreveu que a ignorância é o princípio mais assustador que existe no mundo. Sob esse viés, a análise do filósofo descreve de forma fidedigna o atraso do corpo civil do que tange a temática. Dessa forma, a falta de acesso a informações sobre a importância da doação, e os casos em que são possíveis realizar o ato - apenas em casos de Morte Cerebral (MC) -  fazem com que a ação não ocorra. Ademais, parcela significativa da população nem se quer sabe o que é MC, o que induz diretamente ao défict de voluntários.

Consequentemente a esse cenário, há a recorrência aos meios ilícitos de conseguir o acesso ao órgão. No conceito de Banalidade do Mal de Hannah Arendt, a autora defende que se o Estado é omisso, a sociedade usa seus recursos para atingir os objetivos. Nesse prisma, o mercado ilegal de transplantes expande rapidamente, contudo, tal realidade realizada com cirurgias clandestinas coloca em risco tanto a vida de quem doa, quando a de quem recebe. Segundo o Minustério Público, em 2003 diversos moradores do Recife iam até a África do Sul para vender rins, isso mostra  que essa problemática é de amplo espectro.

Logo, são indispensáveis intervenções conjuntas para solucionar esse panorama. Assim, cabe ao Ministério da Saúde (MS) junto as redes televisivas esclarecer estigmas sobre a doação de órgão no país por meio de campanhas em Unidades Básicas de Saúde (UBS) que conscientizem sobre a importância da doação, além disso, a mídia deve retratar em novelas e filmes - que devem ser dispinibilizados nas redes sociais para atingir o maior público possível - a realidade do que acontece durante a doação (desde a entrada no banco de espera até a parte cirúrgica). Dessa forma, a sociedade não agirá como Arendt descreveu e por consequencia os riscos do merdado ilegal serão amenizados pela falta de procura.