Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 14/01/2021
Em um dos episódios da famosa série televisiva “Grey’s Anatomy”, é retratado o longo processo enfrentado por um paciente ao precisar receber um transplante de rim, porém, devido à grande quantidade de pacientes na lista de espera pelo órgão, ele acaba vindo a óbito. Para além da ficção, na atual sociedade brasileira, muitas pessoas passam as mesmas dificuldades vivenciadas pelo paciente, visto que, ainda que venha aumentando durante os últimos anos, o número de doadores de órgãos no Brasil não atingiu proporções significativas em comparação a quantidade de pessoas que necessitam de um transplante, fruto da falta de esclarecimento sobre o processo e da ausência de debates nas escolas. Assim, faz-se necessária uma intervenção neste cenário.
Em primeiro lugar, é importante salientar que a carência de diálogos acerca do transplante de órgãos nas instituições de ensino é um dos principais empecilhos para o crescimento dos índices de doação de órgãos. Deste modo, a falta de incentivo e conhecimento sobre esse ato solidário desde o ensino escolar contribui para o surgimento do sentimento individualista nos cidadãos brasileiros, pois segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, o individualismo é uma das principais características da pós-modernidade. Assim, a falta de empatia promovida pela falta de incentivos a solidariedade nas escolas impede o surgimento de mais doadores de órgãos no país.
Em segundo lugar, a falta de esclarecimento sobre o processo de transplante de órgãos surge como outro obstáculo no caminho da doação. A decisão de doar ou não doar os órgãos de um paciente apto a essa oferta pertence à família dele. Entretanto, devido ao desconhecimento do quadro do paciente, que não possui atividade cerebral, as famílias, muitas vezes, optam por não doar, por acharem que o paciente pode voltar a vida ou que não morreu, ainda que, quando vivo, o familiar tenha deixado claro que queria ser doador. De acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, a taxa de não autorização das famílias é 43%.
Portanto, a fim de conquistar o aumento do número de órgãos doados no Brasil, o Estado, em parceria com as prefeituras estaduais, deve promover palestras anuais que abordem a importância de ser um doador nas instituições de ensino, de modo que atinjam tanto os educandos das instituições como as suas famílias, enviando verbas governamentais. Outrossim, cabe ao Ministério da Saúde providenciar atos de publicidade que sensibilizem a população e possibilitem o esclarecimento acerca das doações de órgãos, principalmente a partir dos comunicação de massa. Deste modo, o número de doadores no Brasil aumentará e o destino de milhares de pessoas será diferente do vivenciado pelo paciente apresentado na série americana “Grey´s Anatomy”.