Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 19/10/2021

“O amor por princípio, a ordem por base; o progresso por fim”. Esse lema, formulado pelo filósofo francês Auguste Comte, inspirou a frase “Ordem e Progresso”, exposta na bandeira nacional. No entanto, o cenário desafiador vivenciado no Brasil representa uma antítese à máxima do símbolo pátrio, uma vez que o baixo índice de doação de órgãos - grave problema a ser enfrentado pela sociedade –, resulta na desordem e no retrocesso do desenvolvimento social. Desse modo, não só a negligência do Estado, como também a falta de empatia – reflexo do individualismo -, solidificam tal mazela.

A princípio, é interessante pontuar que a negligência do Estado é uma das causas do problema. Nesse sentido, na teoria, imagina-se que a efetivação da doação de órgãos seja garantida pelo direito da saúde, previsto na Constituição federal de 1988. Entretanto, na prática, o Estado não atua em defesa do ponto de vista esperado constitucionalmente, pois, segundo o Ministério da Saúde, mais de 50 mil pessoas estão na fila de transplante de órgãos. Esse sofrimento ocorre pela falta de conhecimento das pessoas à vista do assunto, consequência da indiferença e do pouco investimento do Estado no compartilhamento de informações acerca da importância de tal doação. Logo, é inadmissível a ineficácia do governo em não defender o direito à saúde da população verde-amarela.

Além disso, a problemática encontra terra fértil no individualismo e na falta de empatia. Isso ocorre, visto que, as pessoas não pensam nos benefícios que doar um órgão pode trazer à quem precisa, já que, muitas vezes, é preferido que os órgãos sejam decompostos embaixo da terra, em vez de ajudar uma vida. Além disso, a negativa familiar está presente em 43,0% dos casos, segundo a Organização Mundial da Saúde. Ademais, na obra “Modernidade Líquida”, Zygmunt Bauman defende que a pós-modernidade é fortemente influenciada pelo individualismo. Em virtude disso, há, como consequência, falta de empatia, pois, para se colocar no lugar do outro, é preciso deixar de olhar apenas para si. Essa liquidez que influi sobre o tópico funciona como um forte empecilho para sua resolução.

Portanto, são necessárias medidas capazes de combater a negligência do Estado perante a doação de órgãos no Brasil. Sendo assim, é preciso que o Ministério da Educação, em parceria com escolas municipais e estaduais, desenvolva “workshops” em escolas, para debater causas, consequências e como melhorar os índices de doações. Esses eventos podem ser organizados por meio de atividades práticas, como dramatizações e dinâmicas - de modo a proporcionar a visualização do assunto -, além de palestras de sociólogos que orientem sobre o tema para os jovens e suas famílias, a fim de efetivar a elucidação da população sobre o dilema e erradicar o problema. Assim, será consolidada uma sociedade em que o Brasil andará rumo à ordem e ao progresso.