Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 26/01/2021

O primeiro transplante foi realizado em 1933 por um médico ucraniano para tratar uma insuficiência renal aguda. Entretanto, no Brasil, há uma grande demanda por transplantes e poucos doadores de órgãos. Sob esse prisma, o gesto de doar orgãos esbarra em dilemas, como a falta de informação e a falta de comunicação entre o potencial doador e a sua família. Observa-se, pois, a premência de estratégias para fomentar a prática de doação de órgãos no país, em nome da superação desses paradigmas.

Em primeira instância, desde o iluminismo, entende-se que uma sociedade só progride quando um se mobiliza com o problema do outro. Em contrapartida, nos dias atuais, é escassa a mobilização social pela doação de órgãos em virtude da falta de conhecimento Nesse sentido, muitos duvidam da irreversibilidade da morte encefálica e se sentem inseguras de autorizar a doação. Além disso, em razão da falta de empatia e de informações da equipe médica ao questionarem a família, em um momento doloroso, para com a cessão de órgãos, os parentes recusam a doação, conforme pesquisas do IBOPE Inteligência. Logo, é inegável a carência de conhecimento e dogmas pessoais como dilemas da doação de órgãos na sociedade brasileira.

Para além dessa reflexão, parafraseando o escritor português Saramago, ainda nos falta muito para chegarmos a ser verdadeiros humanos. Sob essa ótica, a falta de comunicação entre os familiares, no que se refere à permissão para doar órgãos dificulta essa ação humanitária. Nesse viés, segundo a legislação nacional vigente cabe à família a decisão sobre a permissão ou não da doação, mesmo durante um momento doloroso e em dúvida acerca da vontade do ente falecido, o que leva muitos familiares à negação. Ademais, as instituições e equipes de transplante se concentram no Sul e Sudeste do Brasil, o que se traduz na escassa democratização de transplantes. Assim, é notório a falta de comunicação familiar e a concentração de locais de transplante como empecilhos para a doação de órgãos no Brasil.

Depreende-se, portanto, que o preconceito e o desconhecimento da vontade dos possíveis doadores de órgãos são entraves para o aumento do número de transplantes realizados. Desse modo, é basilar que o Conselho Federal de Medicina promova seminários educativos, por meio de palestras e debates, em suas plataformas digitais, acerca de informações da morte encefálica e da necessidade do diálogo familiar sobre a doação de órgãos, com o fito de mitigar o problema do excesso de demanda e carência de doadores. Destarte, a pátria brasileira poderá aumentar o número de transplantes e de vidas salvas.