Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 30/01/2021

Na série da Globoplay ‘’Sob pressão’’, é retratada a vida de médicos e pacientes em um hospital público brasileiro. Em um dos seus episódios, a equipe medida enfrenta os barreiras logísticas no transporte de orgãos e a desinformação da sociedade sobre a possibilidade da doação, situações que podem ser relacionados à realidade brasileira quando se trata dos dilemas na doação de órgãos. Nesse sentido, é preciso entender suas causas e prováveis soluções.

A princípio, é possível perceber que essa circunstância se deve a questões estruturais. Segundo Hannah Arendt, em sua teoria sobre Espaço Público, as instituições públicas -inclusive hospitais- têm que ser completamente inclusivos a todos do aspecto social para exercer sua total funcionalidade. Lamentavelmente, a falta de estrutura de coleta e transporte, devido a distribuição desigual dos centros de transplante, evidenciam alguns dos desafios enfrentados pelos doentes no âmbito hospitalar, podendo desencadear complicações fisiológicas ou a morte por questões meramente logísticas. Dentro dessa lógica, nota-se as dificuldades na redução do tempo entre receptor e orgão devido a desigualdade espacial do centros de atendimento.

Outrossim, vale ressaltar que essa situação é corroborada por fatores socioculturais. De acordo com dados divulgados pela Associação Brasileira de Transplante de Orgãos (ABTO) relevam que apesar do Brasil possuir o maior sistema público de transplantes no mundo, aproximadamente 30 mil pessoas aguardam o procedimento, ainda assim a taxa de recusa dos familiares em doar ultrapassa 40%. Isso acontece em razão da falta de comunicação entre possíveis doadores e suas famílias, por existir um desconhecimento acerca das regras e protocolos no processo. Em vista disso, o estimula ao transplante é subaproveitado e a perpetuação dessa situação causa o sofrimento em milhares de brasileiros.

Torna-se evidente, portanto, que medidas que vissem reduzir os dilemas na doação de órgãos no Brasil apresentam entraves que precisam ser revertidos. Logo, é necessário que o Ministério da Saúde, em parceria com o da Economia, por meio do investimento e redirecionamento de verbas, devem incentivar na formação de profissionais especializados em transplantes, além de criar novos centros de atendimento, de modo a descentralizar as unidades do país e proporcionar uma melhor logística no transporte na transplantação. Ademais, o Ministério da Educação, em adição com ONG’s, precisam realizar palestras e campanhas midiáticas, principalmente voltados à ambientes familiares, abordando o tema em comunidades de doadores em potencial, de maneira a informar o povo dos benefícios do gesto altruísta da doação e desconstruir mitos em relação ao tema. Com essa medidas, talvez, desafios encontrados pela equipe médica em ‘‘Sob Pressão’’ estejam longe da realidade brasileira.