Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 02/02/2021
Segundo a instituição de saúde Albert Einstein, a doação de órgãos ou tecidos confere um ato pelo qual se manifesta a vontade de doar uma ou mais partes do próprio corpo para ajudar no tratamento de outras pessoas. Nesse sentido, o Brasil tem enfrentado dilemas quanto à adoção de órgãos. Assim, cabe refletir sobre a discussão do tabu da morte e a necessidade de ofertar informações para que cada sujeito decida se quer ou não doar partes de seu organismo.
Em primeiro lugar, é importante destacar que falar sobre doação de órgão, em algumas ocasiões, é discorrer sobre o tabu da morte. Esse tabu, segundo Sigmund Freud, se deve pela dificuldade em lidar com o limite, pois, de modo inconsciente, o sujeito acredita em sua eternidade. Por esse ângulo, torna-se difícil tratar a questão sobre doar órgãos em caso de morte encefálica, cabendo aos familiares a árdua decisão de oferecer partes do organismo de seus entes amados. Dessa forma, caso os temas sobre a morte e a doação de órgãos fossem debatidas, o impasse dessa doação seria diluído, já que as pessoas saberiam o desejo de seus parentes.
Além disso, a decisão sobre oferecer partes do corpo é de foro íntimo e um problema individual, mas é imperioso disponibilizar a população informações para ajuda-la nessa escolha. Nessa lógica, a Universidade Federal de São Paulo publicou um artigo científico em 2013 com o seguinte dado: o principal motivo de recusa de ofertar os órgãos está relacionado com a falta de compreensão do diagnóstico de morte encefálica. Com isso, essa falta de informação implica prejuízos no que concerne à doação. Sem dúvida, proporcionar maior acesso ao conhecimento favorece que o sujeito aumente o seu repertório simbólico e o ajude a sair do dilema de conceber partes de seu organismo.
Torna-se evidente, portanto, a necessidade de falar sobre a finitude da vida e aumentar o acesso à informação para que o indivíduo decida sobre o destino de seus órgãos e tecidos. Para tanto, é necessário que o Ministério da Saúde crie projetos nas escolas com a finalidade de discutir sobre a finitude da vida e a possibilidade de escolha da doação de órgãos. Tais projetos podem ser realizados por meio de rodas de conversa e ciclos de debates a partir de filmes e documentários relacionados ao tema. Além disso, profissionais da saúde, tais como médicos, enfermeiros e psicólogos podem ser convidados para esclarecer dúvidas sobre as etapas do processo de doação de órgãos. Assim, será possível que cada um, a partir de seus traços singulares, decida sobre oferecer pedaços de si para ajudar outras pessoas.