Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 28/02/2021
Na obra “Utopia, de Thomas More, é retratada uma sociedade idealizada, formada por um corpo social isento de conflitos e problemas. Tal obra fictícia, diverge substancialmente da realidade contemporânea, uma vez que existem desafios como a doação de órgãos no Brasil. Diante desse cenário, faz-se necessário observar tanto a presença de um tabu social no que tange à realização dos transplantes, quanto do individualismo/falta de empatia da sociedade brasileira, pilares a serem solucionados.
É importante ressaltar, diante dessa realidade, que o tabu criado pela sociedade acerca da doação de órgãos reflete na baixa atuação dos cidadãos nessa temática. Isso ocorre, em grande parte, devido à falta de dialógo e de conversas dos cidadãos acerca da morte, sobretudo, no que se refere à autorização das famílias para a doação das estruturas que se mantiverem saudáveis. Sob essa perspectiva, ganha voz o pensamento de Lima Barreto, o qual defendeu que a sociedade brasileira não tem povo, mas possui um público. Na esteira dessa ideia, nota-se a necessidade dos cidadãos brasileiros deixarem a zona de conforto, e tornarem-se um corpo social ativo, que participa de causas sociais em prol do bem comum e,consequentemente, contribuem para que as doações tenham sucesso.
Ademais, outro ponto importante a ser discutido é o individualismo/falta de empatia da sociedade, a qual não demonstra preocupação com outros cidadãos além do eixo familiar. Segundo o pensador Zygmunt Bauman, a pós-modernidade é fortemente influenciada pelo individualismo. Em virtude disso, há como consequência a falta de empatia, pois para colocar-se no lugar do outro é necessário deixar de olhar apenas para si. De maneira analóga, o fato dos indíviduos brasileiros não pensarem no corpo social como um todo dificulta a doação de órgãos, uma vez que surge a necessidade de conscientização e de compaixão para permitir o transplante a pessoas desconhecidas. Assim, pode-se afirmar que a fragilidade das relações sociais impede com que as doações de órgãos acontençam em maior número.
Infere-se, portanto, que urgem medidas efetivas que visa a propor o aumento dos transplantes de órgãos. “A priori”, compete ao MEC (Ministério da Educação), a promoção de debates e rodas de conversas acerca da doação de órgãos e de sua necessidade na sociedade brasileira. Simultaneamente, tais ações devem ser realizadas por meio da escolas, teatros municipais e cinemas, que irão ceder os espaços para que as conversas aconteçam, com o intuito de quebrar os tabus e os mistérios relacionados aos transplantes e, consquentemente, aumentar a taxa de doadores efetivos. Com medidas como essas, espera-se que ocorra uma melhoria do número de órgãos disponíveis, de modo que muitos cidadãos brasileiros sejam beneficiados.