Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 03/03/2021
“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”. O verso escrito por Carlos Drummond de Andrade, um poeta brasileiro, retrata os desafios que são encontrados ao longo da vida de cada indivíduo. O que poderia ter sido, não foi. Por causa daquela pedra, porque havia uma pedra no caminho. Fora do mundo literário, milhares de pacientes brasileiros encontram uma gigante pedra em seu caminho: o decrescente avanço relacionado à doação de órgãos no Brasil. Esse cenário é fruto da falta de infraestrutura para os transplantes de órgão combinado com a falta de conhecimento da população sobre o procedimento, gerando dúvidas relacionadas à segurança da doação e o real destino dos órgãos dos seus entes queridos.
Primordialmente, é necessário discutir a infraestrutura precária dos hospitais e a carência relacionada ao preparo para o transplante de órgãos. De acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), cerca de 70% dos órgãos doados se tornam inviáveis devido a excedência do tempo adequado para utilização do órgão para o transplante, decorrente da falta de materiais, infraestrutura e uma equipe especializada para realizar o procedimento. Diante disso, é possível perceber que esse fator impacta diretamente no processo de doação, visto que, mesmo que haja um doador, o paciente não receberia os órgãos em virtude da irresponsabilidade e falta de preparo dos hospitais.
Além da infraestrutura hospitalar precária, a falta de conhecimento sobre o processo de doação de órgãos gera um receio por parte dos doadores, relacionado a venda ilegal de órgãos humanos para transplante. A existência do tráfico de órgãos e a valorização dos órgãos nesse mercado assombra os potenciais doadores, a possibilidade de que os órgãos de seus familiares queridos sejam responsáveis por alimentar esse mercado repulsivo se torna um fator de suma importância na consideração da aprovação da doação.
Desse modo, para que menos pacientes faleçam durante a espera por transplantes de órgão, cabe ao Ministério da Saúde investir parte da verba governamental em equipamentos e profissionais adequados para a realização de tal procedimento, fazendo com que haja um aumento no número de transplantes e, consequentemente, uma diminuição na lista de espera. Ademais, é de suma relevância a conscientização sobre a importância da doação de órgãos. Isso pode ser feito por meio de palestras com profissionais da área, tanto para adultos quanto para crianças e adolescentes na escola. Assim, pacientes que necessitam de doações de órgãos terão menos pedras em seus caminhos, facilitando a sua luta pela sobrevivência.