Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 16/03/2021
Em 1954 o médico Joseph Murray fez história ao realizar o primeiro transplante bem-sucedido de um órgão vital. Desde então, a prática se expandiu pelo mundo sendo, no Brasil, oferecida na sua quase totalidade pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, a despeito da disponibilização, o número de doadores é insuficiente, fato agravado pela pandemia atual. Assim, há uma cultura de não-doação no país que perfaz um grave problema de saúde pública na medida em que prejudica a efetividade do sistema e, sobretudo, a vida de milhares de pessoas.
Em primeiro lugar, vale salientar, que sem doador não há transplante. Desta feita, de acordo com um levantamento do Ministério da Saúde, há uma taxa de recusa de 45% dos casos de potencial doação, por parte das famílias. Ou seja, quase metade dos possíveis transplantes não ocorre, em boa parte, por desconhecimento acerca do processo de doação. Assim, há um medo de mutilações, de maus tratos e mesmo da aceitação morte em si. Logo, é necessário quebrar essa cadeia e seguir exemplos como no caso do apresentador Gugu Liberato, cuja família doou seus órgãos e tecidos, beneficiando cerca de 50 pessoas à época.
Por outro lado, a estrutura da rede de transplantes brasileira é insuficiente para a demanda existente. Dessa forma, falta a disponibilização de melhores e maiores centros que atuem de forma estadual e “in loco”, bem como a formação contínua de profissionais para operar no monitoramento, na captação e sobretudo na educação em saúde. Isso contribuiria para o desenvolvimento de uma atitude social de empatia e quiçá, amenizaria a fila de 35 mil pacientes que esperam hoje por um órgão, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos.
É fundamental, portanto, que medidas sejam tomadas para resolução desse quadro, como a adoção de uma campanha de divulgação, capitaneada pela mídia digital e televisiva, Ministério da Saúde e escolas – principais formadores de opinião na contemporaneidade – que fomente uma cultura de doação de órgãos. Dessa maneira, por meio do emprego de anúncios, propagandas e debates nas redes sociais e em comunidade, atingiria-se tanto a parcela jovem como a idosa da população, visando à informação, conscientização e empatia. Para que, finalmente, essa maravilha iniciada por Murray seja uma realidade na vida de muitos e, também, uma prioridade para a nação.