Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 17/03/2021
A morte do apresentador Gugu Liberato, em 2019, ocorrida após uma queda que levou a um traumatismo craniano e, assim, à sua morte encefálica, reacendeu um debate decorrente na sociedade brasileira: o dilema da doação de órgãos. Embora extremamente necessárias, as doações de órgãos no Brasil não são tidas como tal prioridade. Isso por conta das dificuldades envolvidas no processo de captação, entre elas, a recusa familiar e também, a baixa quantidade de doadores declarados.
Em primeira análise, cabe ressaltar os empecilhos encontrados pelas equipes de saúde desde o início da procura pelo órgão, até a inaceitação dos familiares dos doadores. Conforme já preconizado por Zygmunt Bauman, não são as crises que mudam o mundo, e sim, a reação dos indivíduos diante à elas. Nesse sentido, a rejeição proveniente dos familiares no momento de perda deve-se ao impacto psicológico causado pela situação. Ademais, de acordo com o filósofo Freud, a melancolia do luto sentida em tal momento, seria o desejo de recuperar algo que foi perdido, o que pode justificar assim, a possível recusa por parte da família à permissão de doar os órgãos do ente querido.
Outrossim, a necessidade de muitas doações em contraste a baixa quantidade de doadores declarados é outro óbice. Segundo o vice presidente da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos, Paulo Rêgo Fernandes, devido a pouca notificação acerca da carência de doações, por conta da não abrangência de equipes de profissionais de saúde em relação a todos os municípios do País, a proporção de transplantes tende a estagnar por causa do número de pessoas já em espera na Lista Única Nacional (cerca de 35 mil, dados pelo próprio médico). Dessa forma, atrelado a essa ocorrência, o tempo de espera se torna mais longo, situação a qual, prejudica a saúde de quem mais necessita do órgão, algo que pode comprometer a vida da pessoa, apesar de existir uma ordem de prioridade.
Portanto, ações paliativas são necessárias a fim de contornar os dilemas da doação de órgãos no Brasil. Cabe ao Governo Federal, por meio do Ministério da Saúde, o devido suporte ao programa já existente do Sistema Unificado de Saúde (SUS) responsável pelas doações e transplantes de órgãos no País. Esse apoio seria caracterizado pelo aumento da abrangência de equipes de saúde incumbidas no transcurso, por todas as unidades federativas, no fito de propagar a notificação da demanda por doações, para assim, ocorrer um possível crescimento no número de doadores. Além disso, as Secretarias de Saúde Estaduais devem fazer campanhas publicitárias em emissoras locais, na intenção de promover o esclarecimento acerca do processo e, dessa forma, sanar possíveis dúvidas e quebras de estigmas acerca do tema. A partir dessas medidas, talvez, mais pessoas se inspirarão no ato do apresentador Gugu e. de certa maneira, darão continuidade à vida mesmo após falecidas.