Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 17/03/2021
Em 1954, o médico Joseph Murray fez história ao realizar o primeiro transplante bem-sucedido de um órgão vital. Desde então, a prática se expandiu sendo, no Brasil, oferecida quase que na totalidade pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, a despeito da disponibilização, o processo de transplante no Brasil perfaz um grave problema tanto pela insuficiência de doadores quanto pelas deficiências da rede de saúde. Assim, discutir a doação de órgãos no país é debater sobre uma cultura de não-doação, prejudicial à efetividade do sistema e, sobretudo, à vida de milhares de pessoas.
Em primeiro lugar, vale salientar que sem doador não há transplante. Desta feita, de acordo com um levantamento do Ministério da Saúde, há uma taxa de recusa de 45% dos casos de potencial doação. Ou seja, quase metade dos possíveis transplantes não ocorre, em boa parte, por desconhecimento da população, o que gera medo de eventuais mutilações, de maus-tratos e mesmo da morte. Logo, debater o problema em sociedade, jogando luz ao tema, é primordial para quebrar essa cadeia de desinformação, incentivando exemplos como ocorreu no caso do apresentador Gugu Liberato, no qual foram doados seus órgãos e tecidos, beneficiando dezenas de pessoas.
Por outro lado, a estrutura da rede de transplantes brasileira é insuficiente para a demanda existente. Dessa forma, falta a disponibilização de melhores e maiores centros que atuem de forma estadual e “in loco”, bem como a formação contínua de profissionais para operar no monitoramento, na captação e sobretudo na educação em saúde. Para Hobbes, é dever do Estado garantir e preservar a vida dos cidadãos, sendo a saúde um direito básico. Logo, o fomento à melhoria da rede aliado ao desenvolvimento de uma atitude social empática, amenizaria a fila de 35 mil pacientes que hoje esperam por um órgão, segundo a Associação Brasileira de Transplantes.
É fundamental, portanto, que medidas sejam tomadas para resolução desse quadro. Assim, o Ministério da Saúde juntamente com as mídias digitais e as escolas – principais formadores de opinião na contemporaneidade – capitaneiem uma campanha de divulgação, que estimule uma cultura de doação de órgãos. Essa iniciativa aconteceria por meio da formação continuada de profissionais, pelo investimento na rede de transplantes e principalmente, pelo emprego de anúncios e debates nas redes sociais e televisivas, visando à informação e conscientização da população jovem e idosa. Afim de que, finalmente, essa maravilha iniciada por Murray seja uma prioridade para a nação e, sobretudo, uma realidade na vida dos milhares que necessitam.