Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 13/04/2021

Na animação japonesa “Angel Beats”, Yuzuru Otonashi, o protagonista da trama, decide ser um doador de orgãos e, após a sua morte, salva a vida de Tachibana Kanade — que recebe o coração dele. Fora da ficção, as pessoas têm semelhante mudança de vida após receber uma doação, contudo, por falta de um devido conhecimento e até de infraestrutura adequada, ainda não há uma cultura de doadores no Brasil. Assim, essa carência de adesão torna-se um problema que precisa ser discutido.

Primordialmente, a doação só pode ser feita com a autorização familiar em caso de morte encefálica comprovada — parada completa e irreversível das funções do cérebro —, considerada a única forma de  doar os órgãos após a morte, segundo a Lei nº 9.434/2001. Dessa maneira, o indivíduo deve comunicar aos seus familiares a vontade de ser um doador, tendo em vista que eles serão os responsáveis por assegurar que isso seja concretizado. Contudo, por falta de conhecimento sobre o assunto — devido à baixa quantidade de campanhas informativas — e da importância dessa ação na sociedade, a taxa de adesão dos brasileiros a essa causa ainda é baixa, tendo em vista que cerca de 43% das famílias não autorizam a transplantação, segundo dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos.

Somado a isso, a infraestrutura insuficiente e a concentração desproporcional dos profissionais qualificados nas regiões do país acentuam progressivamente as dificuldades da doação de órgãos. Dessa forma, determinadas regiões, apesar de apresentarem número potencial de doadores, não apresentam suporte para a realização do transplante. Tal fato é confirmado por pesquisa do grupo de Acesso a Medicamentos e Uso Responsável da Universidade de Brasília (AMUR-UnB), que aponta que a maior concentração dessas equipes se concentra nas regiões com os maiores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) e serviço estruturado de saúde, como no sudeste e no sul, com 43,1% e 2,3%, respectivamente, de todas as doações de órgãos e tecidos realizadas no Brasil.

Dessarte, a problemática da doação de órgãos no Brasil precisa ser combatida. Como forma de grantir isso, é imprescindível que o Ministério da Saúde (MS), com o objetivo de aumentar a quantidade de doações, crie uma campanha sobre a importância de ser um doador — a ser veiculada na mídia televisiva, radiofônica, social e impressa. Para isso, é imperativo que traga, especificamente, relatos de formadores de opinião, como o doutor Drauzio Varella, e, com uma linguagem compreensível para o grande público, aborde os efeitos positivos dessa ação. Além disso, faz-se necessário que o MS, com o intuito de garantir melhor infraestrutura às demais áreas do país, amplie a quantidade de hospitais aptos a realizar a transplantação, especificamente nas regiões Norte e Nordeste. Desse modo, o Brasil contará com mais pessoas dispostas a salvar vidas, assim como o personagem Yuzuru Otonashi.