Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 10/04/2021

O filme ‘‘Sete Vidas’’ narra a vida de um homem depressivo que tenta fugir da culpa de um acidente causado por ele. Na obra, sete pessoas têm suas vidas modificadas por conta da doação inesperada de órgãos que necessitavam. De maneira análoga à história ficitícia, a questão dos dilemas da doação de órgãos, no Brasil, ainda enfrenta problemas no que diz respeito ao baixo percentual de doadores. Assim, é licito afirmar que a postura do Estado em relação à saúde e a dificuldade de escolha, por parte dos familiares, em tornar um parente doador contribuem para a perpetuação desse cenário negativo.

Em primeiro plano, evidencia-se, por parte do Estado, a ausência de incentivos e investimentos efetivos para facilitar a doação de órgãos no país. Essa lógica é comprovada pelo papel pouco atuante que o Ministério da Saúde exerce na administração do país. Instituído para ser um órgão que promova a aproximação dos brasileiros a conhecimentos sobre saúde e formas de contribuição, tal ministério ignora ações que poderiam, potencialmente, fomentar o interesse pela doação de órgãos, como a preparação de campanhas explicitando como, quando e onde dar entrada a processos que garantam, se possível, a doação de órgãos. Desse modo, o Governo atua como agente perpetuador do processo de ausência de doadores. Logo, é substancial a mudança desse quadro.

Outrossim, é imperativo pontuar que o momento difícil em que familiares devem decidir se seu falecido parente será um doador de órgãos, também colabora para o desenvolvimento do dilema associado a doação de órgãos. Isso decorre, principalmente, da necessidade de ser tomada uma decisão às pressas, visto que após a morte os órgãos possuem um tempo escasso de permanência de suas funções. Nesse sentido, há, de fato, uma dificuldade advinda do momento de tristeza e sentimento de perda, que muitas vezes corroboram com a escolha de não tornar o falecido em doador, visto que o  processo de doação muitas vezes desfigura a pessoa e isso acaba afetando ainda mais o sentimento de tristeza dos familiares. Consequentemente,  quem precisa de um órgão para viver fica tempos na fila.

É necessário, portanto, o incentivo a doação de órgãos no Brasil, visando a diminuição dos dilemas associado ao processo e sua facilitação burocrática. Para isso é de suma importância a ação do Ministério da Saúde, em parceria com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), para divulgação de materiais em redes sociais oficiais, realizadas por médicos e autoridades na área da saúde, que ratifiquem a importância da doação de órgãos. Ademais, é imprescindível que o Estado, por meio de verbas destinadas à saúde, garanta a humanização do processo de escolha dos familiares, investindo em médicos e psicólogos que os ajudem a lidar com esse difícil processo de perda, amparando-os. Somente assim, a situação vivenciada em ‘‘Sete Vidas’‘poderá ser visualizada no país.