Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 01/05/2021

Balança desigual

Na série estadunidense ‘Grey’s Anatomy’, de Shonda Rhimes, retrata-se no episódio, ‘Both Sides Now’, o transplante de fígado esperado, ansiosamente, pela paciente por três anos. De forma similar, percebe-se que a parcela da população que necessita da doação de órgãos enfrenta o mesmo desafio narrado na ficção: a escassez de doadores efetivos. Logo, é notório que a perpetuação de tal problemática gera sofrimento e morte dos enfermos que aguardam o transplante, refletindo na falta de comunicação entre familiares e na negligência perante à carência de unidades que realizam o procedimento.

Primeiramente, destaca-se que, por se tratar de um tema tabu, a doação de órgãos ainda é pouco abordada no ambiente familiar. Quanto a tal fato, cita-se Zygmunt Bauman, em que, na modernidade líquida, o individualismo e o imediatismo dificultam a realização de gestos altruístas como o transplante de órgãos. De modo correlato, a questão em pauta dialoga com a fluidez nas relações, pois se faz ausente discussões sobre tal solidariedade, uma vez que se cria um sensacionalismo sobre tal procedimento. Assim, observa-se a perpetuação da não concordância da família em doar os órgãos após a morte encefálica de um ente querido.

Ainda, ressalta-se que a distribuição heterogêneas das redes transplantadoras é um fator que impede a concretização das doações. No tocante a esse aspecto, é possível parafrasear com Sócrates, ao reiterar a ignorância como a ausência de interesse em conhecer o contexto social e seus múltiplos desafios.Com base nisso, constata-se, de maneira análoga, que a falta de unidades que realizam o procedimento é resultante do frágil investimento no setor de transplantes, já que a temática é negligenciada pelo poder governamental. Como resultado, verificam-se problemas relacionados a dificuldade em manter os doadores em boas condições para terem seus órgãos transplantados.

É imprescindível, então, que medidas sejam tomadas em prol da solução de tal impasse. Diante disso, espera-se que o Ministério da Saúde, em parceria com o meio midiático, promovam campanhas de conscientização para reiterar a importância da doação de órgãos, por meio de propagandas televisivas, a fim de abordar o assunto em sociedade e, com isso, aumentar o número efetivo de doadores. Dessa forma, será possível perceber mudanças no tocante a tal adversidade, indo de encontro ao cenário presente na balança de doação desfavorável, ou seja, escassez de órgãos e abundância de pacientes em estado terminal.