Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 29/04/2021
Ao longo do século XX, avanços na medicina e melhorias na qualidade de vida aumentaram a expectativa da vida humana. Dessa maneira, à medida que há a continuidade da existência, há o aumento na demanda por doação de órgãos, visto que as células, ao envelhecerem, comprometem o funcionamento do organismo. Portanto, tal processo é uma tendência global e enfrenta dilemas que obstruem seu pleno funcionamento como: o individualismo atrelado à ignorância dos seres sociais e a não ressignificação da morte no seio familiar, responsáveis por minar o número de doadores efetivos.
Consoante a Organização Mundial de Saúde, um doador de órgãos salva, em média, oito pessoas, por meio da doação de órgãos sólidos e de tecidos. Porém, a sistemática capitalista de produção é responsável, no âmbito cultural, por fomentar o individualismo social, que compromete todo o processo, ao torná-lo, ainda mais, moroso, o que prolonga as filas de espera. Além do mais, tal individualismo vincula-se à ignorância - fruto de uma educação deficitária - dos seres sociais sobre a morte cerebral e como ocorrem as doações, o que potencializa, na vida do paciente, o abismo entre a finitude iminente da vida e a esperança de um recomeço.
Para mais, conforme o filósofo Jacques Derridá, hábitos culturais que geram problemáticas sociais, direta ou indiretamente, podem ser desconstruídos. Sendo assim, a ressignificação da morte - evento natural da vida - é relevante para a maximização das doações de órgãos, pois ao invés da vida, simplesmente, findar-se por completo, ela pode garantir a perpetuação de outras existências. Além disso, mesmo que o indivíduo seja doador, a legislação brasileira relega às famílias o direito de escolha. Desse modo, a ressignificação da morte e a explanação dos doadores, aos familiares, acerca de suas vontades reduzem conversas dolorosas, no momento da morte, com os profissionais de saúde, e garantem a doação efetiva. À medida que há a naturalização da perpetuação da existência de outros indivíduos, há a celeridade no processo de modo geral.
Logo, a fim de que se obstrua os dilemas da doação de órgãos e torne-a célere, faz-se necessária uma reformulação do sistema educacional desde o ensino básico e a disseminação de propagandas críticas - orientada pelo Ministério de Educação e de Propaganda, respectivamente - que naturalize o ato de se tornar doador efetivo de órgãos e intensifique a coesão social, ao desconstruir visões sectárias que permeiam o seio civil acerca do processo, visto que é uma necessidade humana geral. No entanto, tais medidas só serão efetivadas, por meio da construção da solidariedade em relação a vida do próximo, pois a sensibilidade humana é um fator transformador sociocultural. Sendo assim, há a renovação da esperança e perpetuação da vida.