Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 11/05/2021

Com um desejo inabalável de recuperar sua capacidade de se emocionar, o Homem-de-Lata - personagem do livro “O Mágico de Oz” - viaja à Cidade das Esmeraldas em busca de um coração. O cenário da história, para além dos limites ficcionais, é trazido à realidade pela discussão da doação de órgãos. Nesse sentido, milhares de indivíduos buscam recuperar sua saúde a partir de transplantes. Todavia, esses cidadãos deparam-se com dilemas nessa tentativa necessária à sua sobrevivência, como o baixo orçamento da saúde pública e os desafios atrelados à conquista de doadores de órgãos.

Em uma primeira análise, cabe apontar o investimento insuficiente do sistema único de saúde como entrave nas doações de órgãos no caso brasileiro. Em concordância com a Constituição Cidadã de 1988, no artigo de número 196, todos brasileiros têm direito às ações e aos serviços que visam à promoção da sáude. Apesar disso, observa-se, hodiernamente, uma defasagem na concretização dessa legislação, uma vez que a falta de verbas inviabiliza, na maioria dos casos, o processo de transplante dessas unidades fisiológicas, desde a coleta até o transplante. Assim, um número elevado de brasileiros deixam de receber órgãos por má gestão governamental e aguardam anos em listas de espera, o que deve ser combatido.

Além disso, alguns obstáculos são encontrados no alcance de doadores: subnotificação dos casos de morte encefálica e péssima abordagem dos profissionais de saúde com os familiares em processo de luto. Dessa maneira, somado às problemáticas financeiras no ambiente hospitalar, médicos e enfermeiros, por insuficiência em suas capacitações ocupacionais, deixam de identificar os possíveis doadores, divergindo do Código de Ética Médica, que prevê essa verificação do paciente. Ademais, a postura mecânica ao abordar a família da vítima acarreta em uma resistência à entrega dos órgãos. Por isso, fica evidente o porquê do número de doações no país ainda ser menor do que o número de pessoas esperando por essa ação solidária.

Urge, portanto, a necessidade de se combater os dilemas envolvidos nas doações de órgãos. Para isso, cabe ao Ministério da Cidadania - órgão governamental responsável pela administração do Tesouro Nacional -  alocar uma parcela maior de capital para a saúde pública, por meio de um projeto de lei, a fim de que haja uma melhora na logística dos transplantes e um financiamento para o treinamento adequado dos profissionais envolvidos nessa área, como em congressos acadêmicos. Desse modo, o Brasil tornar-se-á uma Cidade de Esmeraldas para todos os cidadãos que necessitem de um órgão, assim como o Homem-de-Lata.