Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 10/06/2021

Nunca perca a fé na humanidade, pois ela é como um oceano. Só porque existem algumas gotas de água suja nele, não quer dizer que ele esteja sujo por completo, disse Mahatma Gandhi. Associando esse pensamento a um contexto de saúde pública, o baixo incentivo à doação de órgãos funciona como gotas de sujeira poluidoras. Nesse prisma, fatores como a carência de informações e um pensamento banal impedem a limpeza do grande oceano chamado sociedade.

Em primeira análise, a limitação do acesso ao conhecimento pelas pessoas mostra-se como um dos desafios para a resolução do problema. Conforme Arthur Schopenhauer, os limites do campo de visão dos indivíduos determinam sua compreensão acerca do mundo. Nessa fala, o filósofo justifica a causa do empecilho: se os seres não possuem informações corretas sobre a doação - dados, estatísticas, exemplos - que mostrem a utilidade desse método para salvar vidas; o campo de visão será limitado, e a sociedade perderá muitos cidadãos por uma negligência irracional. Com isso, se o coletivo não for informatizado em perceber que doar um órgão pode garantir a vida de outra pessoa, o futuro será o caos das relações humanadas em que a qualidade de vida será prejudicada.

Em segunda análise, um senso comum sobre a importância da doação de órgãos apresenta-se como outro fator dificultador do bem-estar. Segundo Annah Arendt, na teoria da “Banalidade do Mal”, o ato preconceituoso passa a ser realizado inconscientemente quando os indivíduos normalizam tal situação, comparando com as ideias triviais que circulam no cotidiano de que doar órgãos não é importante e, ainda, prejudicial. Nesse aspecto, um exemplo seria que a retirada de partes internas do corpo prejudica aparência para as homenagens póstumas, assim como a incompreensão de que doar é uma troca, ou seja, um falecimento por um renascimento. Por isso, a consequência é o negaciosismo e o medo do desconhecido pela população, dificultando o salvamento de vidas e a melhora do bem-estar civilizatório.

Portanto, medidas são necessárias para aumentar a doação de órgãos. Por conseguinte, cabe ao Ministério da Saúde realizar palestras ministradas por psicólogos com o “slogan”: “Salvando vidas”. Esse projeto pode ser feito mediante um diálogo - gratuito e aberto para todo coletivo - entre o público presente e o especialista sobre a importância da doação de órgãos para salvar vidas, com exemplos, fatos e infográficos, de modo que a população seja incentivada a aderir nessa causa humanitária, resultando em um corpo social informatizado e na diminuição de vítimas por negligência irracional. Dessa forma, a limpeza do grande oceano, a fé na humanidade e um campo de visão amplo e menos banal tornar–se-ão destinos certos.