Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 24/06/2021

Uma criança gerada a partir de uma fertilização “in vitro” com propósito único de doar órgãos para sua irmã, portadora de leucemia, protagoniza o filme estadunidense “Uma Prova de Amor”, proporcionando ao telespectador uma imersão ao drama de uma família frente a uma doença altamente destrutiva. Ainda que ficcional, a obra traduz a angústia de muitos indivíduos ao redor do mundo diante da falência dos órgãos próprios ou de entes queridos alinhada, também, à incerteza de uma fila de doação. Contudo, apesar de apelativo, o tema da doação de órgãos ainda encara sérios obstáculos infraestruturais e culturais em determinados locais, incluindo o Brasil, o que prejudica diretamente aqueles que necessitam de tal serviço. De modo geral, é possível afirmar que, em territórios brasileiros, urge uma maior atenção dos órgãos públicos direcionada a tal problemática.

Em primeiro plano, vale destacar a alta demanda por doações de órgãos no Brasil, o que solicita, também, uma dedicação governamental a fim de suprir tal necessidade. Apenas em 2014, foram realizados mais de vinte e três mil transplantes no país, o que, por si só, demonstra o valor simbólico do serviço para milhares de cidadãos. Se considerado, ainda, o aumento populacional e o eminente envelhecimento da sociedade brasileira, é lógico inferir que a demanda por serviços relacionados à saúde, incluindo a doação de órgãos, aumentará nos próximos anos. Para tanto, é de suma importância um preparo e uma estruturação do Sistema Universal de Saúde visando tal necessidade.

Además, ao redor do mundo já estão em vigência diversos processos quanto à doação de órgãos que podem servir como modelo para o Brasil. Um bom exemplo é o funcionamento do serviço nos Estados Unidos, que, a partir da priorização na lista de espera daqueles que têm órgãos doados em seus nomes, amplia o banco de órgãos disponíveis para transplantes. Em direção contrária, no Brasil ainda não existem campanhas de incentivo direto à doação de órgãos para além de chamados publicitários, o que evidencia dinâmica e logística atrasadas do país em relação ao resto do mundo e escancara, novamente, a necessidade por reavaliação da burocracia adotada quanto ao tema.

Em suma, frente ao cenário analisado, reafirma-se a necessidade de um avanço do sistema logístico brasileiro acerca da doação de órgãos. O Ministério da Saúde deve reformular a legislação brasileira relacionada ao serviço em questão a fim de modernizá-la, sendo possível, inclusive, tomar o já citado modelo estadunidense como inspiração. Para uma melhor perspectiva e segurança dos brasileiros quanto à própria saúde é necessária colaboração coletiva da população, e isso deve ser sempre reforçado pelo Estado brasileiro. Deste modo, progressivamente, o conflito narrado pela obra “Uma Prova de Amor” deixará de integrar o cotidiano de tantas famílias no país.