Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 28/06/2021
Segundo Stuart Mill, filósofo utilitarista, a ação moralmente certa é aquela que maximiza a felicidade para o maior número de pessoas. Sob essa perspectiva, infere-se que, no âmbito da doação de órgãos, essa máxima será respeitada a partir do momento em que as pessoas consentirem com a cessão de partes de seu corpo - quando falecidos ou em vida - com o fito de assegurar o bem-estar de outrem, garantindo-lhe qualidade de vida. Para isso, a responsabilidade deve ser compartilhada entre governo e sociedade, considerando as barreiras logísticas e culturais ao ato.
A princípio, é válido salientar que algumas regiões do Brasil não possuem uma estrutura apropriada para a execução da concessão de órgãos. Consoante o ex-presidente e hodierno secretário da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), Paulo Pêgo Fernandes, não são todas as unidades de saúde que têm equipamentos e profissionais capazes de atestar a morte encefálica - critério imprescindível para o aproveitamento das vísceras do falecido - o que inviabiliza a doação. Ademais, de acordo a ABTO, a estrutura hospitalar inadequada para manter o doador até a retirada dos órgãos é um entrave para a concretização de um posterior transplante no país.
Outrossim, a recusa familiar é um empecilho para a consumação de uma cessão. Conforme a ABTO, em 2018, 43% das famílias recusaram a doação dos órgãos de seus parentes após óbito encefálico comprovado. Em consonância com Valter Duro Garcia, membro do Conselho Consultivo da ABTO, uma das razões para a negativa dos parentes em doar órgãos é a falta de conhecimento sobre o que é a morte cerebral - um processo irreversível. Nesse sentido, na esperança de que o defunto reviva, os familiares desautorizam a retirada das vísceras, o que acarreta no desperdício de muitos orgãos os quais poderiam salvar a vida de diversas pessoas. No Brasil, segundo a ABTO, 2300 humanos morrem por ano na fila de transplante, o que revela a grandiosa importância de uma doação.
Depreende-se, portanto, a necessidade de se combater esses obstáculos. Para tal faz-se mister a realização de campanhas de divulgação de informações sobre o transplante de órgãos no Brasil - por intermédio de redes socias e propagandas na televisão, principalmente no horário de maior audiência, para todos o brasileiros, a fim de que a percentagem de concessões não feitas em virtude da negação de familiares seja mitigada, em decorrência da elucidação de mitos em relação ao falecimento encefálico. Adicionalmente, é imprescindível o maior investimento na logística da doação, mediante formação de profissionais aptos a confirmar a morte cerebral e instalação de equipamentos indispensáveis para tal processo em todas as regiões do país. Quiçá, destarte, consubstanciar-se-á o que preconiza Stuart Mill - a ação moralmente correta.