Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 15/07/2021

No filme “Uma prova de amor”, é exposta a dificuldade de achar um doador de órgão, ao contar a história de uma menina criada, biologicamente, para doar órgãos a sua irmã que tem câncer. Do contexto fílmico para a realidade brasileira, o egoísmo é uma das causas para a baixa quantidade de doadores de órgãos no país, atuando como o problema principal para a execução deste gesto tão generoso. Outrossim, o preconceito e a ignorância dos brasileiros acerca dos procedimentos para a doação impulsionam a problemática.

Sob esse viés, é relevante abordar que a palavra “egoísmo”, substantivo do latim, significa o amor excessivo por anseios próprios. Todavia, infelizmente, esse conceito não está apenas nas páginas dos dicionários, já que pode ser percebido com força no Brasil, como demonstram a baixa taxa de doação e o elevado número de pacientes na fila de espera por órgãos, tal cenário provém, essencialmente, de um pensamento egoísta, haja vista que muitos indivíduos não optam pela solidariedade com o próximo, e isso compromete a rapidez para a realização dos transplantes. Prova disso é que apenas 2 mil pessoas, dos 10 mil potenciais doadores, doaram órgãos em 2019 e 42.000 aguardam na fila de transplantes, segundo o Ministério da Saúde. Desse modo, o ato de ser solidário em relação ao outro é de fundamental importância, afinal, a solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana.

Ademais, vale ressaltar que no Brasil ainda há muitos preconceitos perante a doação de órgãos, principalmente relacionados às crenças e padrões culturais da população. Sob esse prisma, consoante estudos da OMS, 73% dos indivíduos brasileiros não buscaram aprofundar o conhecimento acerca da doação de órgãos e, mesmo assim, têm medo de ser doador por conta do comércio de órgãos. Nesse sentido, não há como negar que a falta de informação destinada aos indivíduos brasileiros sobre o processo, aliada ao receio do tráfico de órgãos leva à recusa da família em doar os organismos do ente querido que faleceu. Logo, é irrefutável a urgência de que a sociedade desconstrua tal comportamento egoísta que, lamentavelmente, faz muitas pessoas perderem a oportunidade de uma vida longeva.

Dessa forma, fica clara a necessidade de um plano de ação intersetorial que proporcione ao povo um ambiente de cuidado ao próximo. Portanto, o Ministério da Saúde deve reforçar o investimento em campanhas educativas que incentivem a doação de órgãos, por meio da televisão e redes sociais, a fim de mostrar a importância de se falar mais sobre doação, evidenciando que a ignorância, o egoísmo e o preconceito não devem ser barreira para um gesto que salva vidas. Com isso feito, o Brasil diminuirá, dignamente, o tempo de espera dos indivíduos que anseiam por mais anos de vida.