Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 04/08/2021
Ao se averiguar o contexto social hodierno, depreende-se que, embora tenha sido intitulado como “país do futuro” pelo filósofo austríaco Stefan Zweig, o Brasil tem seu desenvolvimento obstado pela existência de diversos problemas que restringem o número de procedimentos de doação e transplante de órgãos em seu território. Funestamente, essa situação decorre, em grande parte, de duas consideráveis problemáticas: a deficitária infraestrutura de saúde nacional e o desconhecimento de grande parcela da população sobre o funcionamento dessa prática que pode ajudar muitas pessoas.
Em primeira instância, cabe analisar que a precariedade do sistema de saúde brasileiro é um grande fator que limita o número de transplantes realizados com êxito. Isso porque uma considerável parcela das partes do corpo doadas se torna inviável para uso, em razão, dentre outras coisas, da carência de materiais necessários, de qualificação médica e de um sistema eficiente de transporte. Nesse sentido, segundo o jornal Folha de São Paulo, a demora em notificar a morte cerebral do paciente - condição necessária para a doação - é responsável pelo desperdício de cerca de 50% dos órgãos com potencial de transplante do país. À vista disso, além de desestimular os indivíduos a se tornarem doadores, esse nefasto cenário notabiliza que a falha estrutural do Sistema Único de Saúde (SUS) impede a universalização da realização desse procedimento e, por isso, é um grande desafio a ser superado pela nação verde-amarela.
Outrossim, a falta de esclarecimentos sobre o processo e a ausência de campanhas que incentivem a doação são fatores perpetuadores dessa situação. Desse modo, grande parte das famílias, por não terem conhecimento sobre a irreversibilidade da morte encefálica, não autorizam o procedimento, o que é comprovado por meio de dados oficiais da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) que indicam que, em 2019, mais de 40% das famílias se recusaram a doar os órgãos de seus familiares. Assim, torna-se evidente a necessidade de disseminar mais informações sobre esse assunto com o objetivo de aumentar o número de possíveis doadores e, por conseguinte, salvar mais vidas.
Diante do exposto, urge, portanto, ao Ministério da Saúde, por meio de verbas governamentais e de uma parceria com o Ministério das Comunicações e com as principais redes de TV aberta, a criação de campanhas socioeducativas - a serem transmitidas nos principais horários comerciais - que abordem a importância da doação de órgãos e explicitem como o procedimento é feito, a fim de incentivar mais indivíduos a ajudarem essa causa e, consequentemente, criar meios propícios para que a teoria de Zweig se torne realidade.