Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 24/08/2021
O apresentador de programas televisos Gugu Liberato, falecido em novembro de 2019 após uma queda em sua casa em Orlando, teve seus órgão doados que ajudaram 50 pessoas que estavam na lista de espera por um transplante. Entretanto, mesmo após o gesto humanitário e voluntário que serviu de exemplo para muitos indivíduos, o Brasil ainda enfrenta diversos desafios na ampliação da doação de órgãos. Nesse sentido, dois aspectos fazem-se relevantes: o tabu em relação à morte, bem como a mentalidade conservadora das famílias.
Inicialmente, a recusa da sociedade sobre conversar na possibilidade de, caso algo trágico aconteça, os envolvidos mortos serem uma opção de doadores de órgãos é um fator que fomenta a problemática. Apesar de existir a Lei nº 9.434 na qual autoriza e regulamenta os transplantes e determina o destino final das partes do organismo, que são para os cidadãos da lista de espera do SUS, cabe aos familiares consentirem o processo no final. Porém, os parentes necessitam ter dialogado sobre a viabilidade da opção com antecedência para que não haja dúvidas no momento decisivo. Assim, ao optarem pela ajuda, o número de óbitos entre os receptores, principalmente os pediátricos, reduz draticamente.
Ademais, a mentalidade conservadora das famílias brasileiras quanto a permissão do transplante contribiui na dificuldade para a ampliação do ato. Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), 43% das famílias entrevistadas recusaram a doação dos órgãos de seus parentes após morte encefálica comprovada. A recusa na autorização para que o procedimento ocorra é derivada na tentativa de demonstrar respeito e consideração com seu ente querido ou, por ser muito recente, não aceitar a realidade e preferir abster-se da decisão. Dessa forma, ao negar a transmissão de partes saudáveis, muitas pessoas perdem a oportunidade de saíem da lista de espera e serem salvas.
Portanto, visando minimizar os desafios para a ampliação da doação de órgãos no Brasil, urge que o Ministério da Saúde promova campanhas de estímulo a conversas no corpo social sobre o assunto. Isso deve ser feito por intermédio de palestras com profissionais especializados nesse tipo de caso, selecionados a partir do seu tempo de qualificação e atuação na área médica. Além disso, o Governo Federal deve orientar as famílias acerca das conseqências que a definição desfavorável ao transplante acarreta na existência de outros. Tal ação acontecerá por via projetos conscientizadores, financiados com a verba pública destinada à população, disseminados em regiões com maior número de público, como os hospitais.