Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 16/09/2021
No filme norte-americano “Um Ato de Coragem”, lançado em 2002, é retratado o desespero de um pai na busca por um transplante de coração para seu filho. De modo similar, a história dessa produção se aproxima da realidade de muitos brasileiros, pois a doação de órgãos no país enfrenta diversos dilemas. Diante disso, cabe destacar não só o papel da manutenção de mitos mas também a ineficiência do governo.
Inicialmente, convém ressaltar que a permanência de pensamentos mitológicos no corpo social é um dos principais desafios da questão. Sob esse viés, Pierre Bourdieu — sociólogo francês— sustentou, em sua teoria sobre o Habitus, que os indivíduos têm a capacidade de incorporarem as mentalidades e os costumes do coletivo. Analogamente, percebe-se que a manutenção de mitos na sociedade em relação à doação de órgãos influencia a estrutura mental das pessoas. Isso resulta na presença de crenças errôneas acerca do diagnóstico de morte encefálica, por exemplo.
Ademais, a ineficácia da esfera governamental corrobora a continuidade do problema. Nessa perspectiva, a Constituição Federal de 1988 coloca o Estado como provedor da saúde e do bem-estar geral. Todavia, o poder público não atua na efetivação de tal diretriz no território nacional, pois ele não garante a infraestrutura de coleta e de transporte de tecidos adequada em todos os centros urbanos. Em consequência disso, o número de possíveis doadores é desperdiçado e a fila de espera por um transplante é elevada. Logo, é imprescindível que as autoridades revertam esse cenário.
Portanto, urge combater a incidência desses desafios no contexto brasileiro. Para tanto, o Ministério da Saúde, por meio de publicações audiovisuais e palestras nas redes sociais, deve informar a população sobre os processos adotados na retirada de órgãos. Tal ação precisa ter como objetivo amenizar a influência de pensamentos equivocados relacionados ao diagnóstico de óbito. Além disso, é necessário que ela seja integrada por médicos ligados ao setor. Assim, questões tematizadas em “Um Ato de Coragem” serão erradicadas.