Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 02/10/2021
No seriado estadunidense, “Grey’s anatomy”, é retratado o cotidiano de médicos da cidade de Seatle. Em diversos episódios há grande ênfase na importância da doação de órgãos, mas também na dificuldade que muitos pacientes enfrentam pela espera incerta e frustrante. Fora da ficção, no Brasil a doação de órgãos, apesar de estar em crescimento, ainda não consegue suprir a demanda. Esse panorama é corroborado pela falta de informação e pelo mercado ilícito de venda de órgãos.
Em primeira análise, a falta de informação e insegurança por parte dos familiares deve ser levada em consideração. Devido ao desconhecimento do processo de transplante muitas famílias acabam desconsiderando essa opção e deixando de contribuir com a saúde do novo receptor. Sendo assim, vale ressaltar, nesse contexto, a falha do cumprimento do artigo 6 da Constituição de 1988, no qual garante, dentre outros, o direito à saúde. Nessa perspectiva, o direito à saúde vai além de oferecer a infraestrutura adequada, também é preciso oferecer informações e incentivos à toda população. Dessa forma, a aceitação do público cresceria, juntamente com a doação de órgãos.
Em segunda análise, o escritor Gilberto Dimenstein trás em sua obra “Cidadão de papel” uma reflexão pertinente acerca do sistema de leis do Brasil. Segundo o autor, a legislação brasileira é ineficaz, pois não é efetivada na prática, limitando-se, muitas vezes, apenas ao papel. Prova disso é o mercado ilegal de compra e venda de órgãos, que apesar de ter leis proíbindo, ainda está presente no cenário brasileiro. A corrupção que leva ao transplante não regulamentado de órgãos além de tirar a oportunidade de uma pessoa que está aguardando uma segunda chance na fila de transplante, gera também um grande risco para o futuro desse receptor, já que, feito na ilegalidade, normalmente, não há boas condições e estruturas para o transplante apropriado, aumentando o risco de infecções e rejeição natural do corpo.
Depreende-se, portanto, que o Estado - na condição de garantidor dos interesses individuais e sociais - deve direcionar verbas governamentais ao Ministério da Saúde, para a realização de propagandas, debates e campanhas informacionais para todo o público com o intuito de aumentar a aceitação da população. Ademais, também deve-se investir na fiscalização dos transplantes de órgãos a fim de evitar eventuais entraves, como a corrupção. Combatendo a ilegalidade e disseminado informações verídicas, o povo brasileiro estará um passo mais perto de ter seus direitos garantidos no papel e concretizados na prática.