Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 04/10/2021
A série norte-americana “The Good Doctor” mostra, ao decorrer da trama, como o transplante de órgãos pode salvar vidas, quando feito dentro do período hábil. Entretanto, a realidade diverge da ficção, tanto pela falta de estrutura necessária para a realização desse procedimento no país, quanto pela desinformação que limita a quantidade de famílias que permitem a transferência dessas partes aos necessitados. Nesse contexto, é indispensável o debate acerca do dilema da doação de órgãos no Brasil e como conscientizar a população da importância desse ato.
Em primeiro plano, é necessário apontar a precariedade do sistema de saúde brasileiro como limitador da quantidade de órgãos reaproveitados. Esse cenário, segundo as ideias do filósofo John Locke, configura-se como uma violação do “contrato social”, uma vez que o Estado não é capaz de fornecer aos seus cidadãos o direito a uma saúde de qualidade. Dessa forma, o mal funcionamento dos hospitais, que mantêm os órgãos do indivíduo com morte encefálica vivos até a notificação de sua condição, é resultado da inoperância estatal, gerando o baixo índice de órgãos doados no Brasil.
Ademais, cabe pontuar que a informação sobre esse procedimento é escassa no país, dado que a lista de espera por um órgão é extensa, afetando a dignidade das pessoas que precisam de doação. Segundo o filósofo grego Sócrates, a ignorância é a razão pela qual os problemas da sociedade não são resolvidos. Portanto, quando muitos não conhecem o significado de morte encefálica e não aceitam quando alguém próximo é diagnosticado pelos médicos, são os parentes do possível doador que irão consentir ou não a doação de órgãos, ou seja, é extremamente necessário que os familiares superem a ignorância a respeito do assunto, superando a problemática social.
Infere-se, portanto, que medidas devem ser tomadas para combater esses entraves. É fulcral o Tribunal de Contas da União, a fim de que sejam inauguradas mais UTIs e seja prestada assistência às que já existem, direcione recursos aos hospitais dos municípios, permitindo que pacientes com morte cerebral tenham seus órgãos conservados e posteriormente doados aos indivíduos na fila de transplante. Ademais, é de extrema importância que o Ministério da Saúde, em parceria com a mídia, divulgue propagandas de caráter pedagógico em outdoors, na televisão e na internet sobre a importância de doar órgãos, visando mitigar as dúvidas acerca do tema e permitir que mais procedimentos sejam feitos no país. Dessa forma, os atos de solidariedade televisionados em “The Good Doctor” se tornarão uma realidade no Brasil.