Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 15/10/2021

Em um de seus contos, Machado de Assis afirma que, por intermédio do diálogo e da divulgação de ideias, é possível fazer um livro, um governo ou uma revolução. Fora das páginas, a ideologia do autor mostra-se plausível quando se percebe que o debate sobre o dilema da doação de órgãos no Brasil é imprescindível para combater os problemas atrelados a este. Nesse sentido, a inoperância estatal e a falta de doadores se caracterizam como principais causas e consequências de tal exposto.

Em primeiro lugar, faz-se importante salientar que a precária difusão de informações deixa a população temerosa a respeito deste procedimento. Desse modo, pode-se citar a novela “Totalmente Demais”, exibida pela Globo, na qual a personagem Gilda – por desconhecer o assunto – tenta convencer a filha a não doar parte de seu fígado para um indivíduo em estado grave. Nessa perspectiva, assim como a coadjuvante da trama, diversos brasileiros não sabem sobre as regras, protocolos e benefícios provenientes do transplante de órgãos. Sendo assim, torna-se uma responsabilidade governamental educar melhor a sociedade nesse âmbito a fim de desmitificar essa prática.

Ademais, é necessário pontuar que tal ignorância populacional impacta negativamente os indivíduos que carecem desse processo para sobreviver. Concomitantemente, é possível fazer um paralelo com o livro “A Cinco Passos de Você”, disponível na Amazon, em que a protagonista urge de um transplante pulmonar, entretanto, devido ao número insuficiente de doadores, passa meses sofrendo à espera do novo órgão. De volta à realidade, da mesma forma que a vivência da personagem da obra, é notório que a falta de pessoas dispostas a se voluntariarem em prol da causa – fator gerado pela negligência do Estado – pode custar a vida de pessoas enfermas e, consequentemente, impedir com que tenham um futuro pleno.

Portanto, é mister que medidas sejam tomadas para atenuar esse impasse. Logo, torna-se imperioso que o governo federal, na condição de garantidor dos direitos individuais, por meio de uma parceria com o Ministério da Saúde, inicie campanhas de divulgação sobre transplante de órgãos a fim de convencer mais cidadãos a se tornarem possíveis doadores. Além disso, também cabe ao Ministério da Educação organizar palestras mensais nas escolas para discutir a importância desse procedimento e fazer com que os alunos possam levar essa discussão para dentro de casa. Assim, a revolução proposta por Machado de Assis ocorrerá.