Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 22/10/2021

No filme “O melhor de mim” o personagem Dawson, após morrer, tem seus órgãos doados para várias pessoas, incluindo o filho da mulher que amava. Embora ficcional, na realidade brasileira, infelizmente, casos de doação de órgãos, como a da obra cinematográfica, não ocorrem de forma efetiva. Nesse contexto, pode-se salientar muitos dilemas relacionados a questão, entre eles: as ainda baixas doações, mesmo que o sistema público de saúde arque com as despesas do processo, devido a déficits em medidas efetivas do Estado e aos tabus que rondam os transplantes em sociedade.

Cabe analisar, a princípio, que um dos principais dilemas relacionados a questão está centrado nas poucas doações, ainda que o sistema de saúde cubra grande parte dos gastos. Sob esse viés, o desequilíbrio entre esses fatores é relevante a ser destacado, visto as disparidades socioeconômicas existentes no país - atestadas por entidades como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Nessa ótica, isso explica-se, já que, sem o amparo do Sistema Único de Saúde (SUS) - que arca com cerca de 95% dos procedimentos de doação, segundo o Ministério da Saúde - barreiras severas seriam criadas para a realização dos transplantes, uma vez que, visivelmente, boa parte da população não conseguiria pagar por quesitos como o transporte dos órgãos e o custos das cirurgias.

Nessa prespectiva, a ocorrência desse dilema pode ser exclarecida pelos déficits em medidas estatais e pelos tabus perante as doações de órgãos que existem na sociedade. Nessa linha de pensamento, pode-se evidenciar as poucas campanhas governamentais ao longo do ano e os baixos investimentos em projetos de orientação e exclarecimento às famílias e aos indivíduos que podem vir a serem possíveis doadores como comprovantes das lacunas do governo. Outrossim, pensando-se no tabu relacionados ao transplante no âmbito social, pode-se ressaltar o medo da violação do corpo - alimentado, muitas vezes, pela falta de informação - e os conflítos éticos e morais, decorrentes da escolha famíliar, que podem esbarar nos quereres daqueles que já faleceram quando esses não se comprometeram, em vida, a serem doadores voluntários.

Portanto, tendo em vista tal dilema e seus motivadores, urge que o governo federal, em parceria com o Ministério da Saúde, crie o projeto “Doação: uma segunda chance”, voltado a sanar os déficits do Estado e quebrar os tabus sociais. Para tanto, isso pode ser realizado por meio do redirecionamento de verbas da Receita Federal para investimentos em campanhas e palestras - buscando exclarecer as questões relacionadas as doações e acabar com os preceitos errôneos da população, ao garantir a obtenção de informações a cerca desse processo de forma clara e direcionada. Nesse sentido, o intuito de tal ação é possibilitar mais doações, como a de Dawson, no cenário Brasil vigente e futuro.