Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 10/11/2021

No clássico infantil “O Mágico de Oz” é retratado o intenso desejo de um dos personagens , o Boneco de Lata , por um coração que permita viver plenamente as experiências existenciais em Oz. Fora da ficção, a vontade do protagonista “enlatado” é compartilhada por muitos brasileiros, os quais dependem da doação de um órgão para sobreviver. Nesse sentido, hão de ser analisados os seguintes dilemas para a concretização dessa prática: o estigma relacionado à doação e a precariedade estrutural para realização de transplantes.

Diante desse cenário, é válido destacar que o diminuto quadro de doadores relaciona-se ao estigma social associado à doação. Segundo o filósofo Francis Bancon, os “ídolos” são falsas noções capazes de bloquear a mente do individuo. Sob esse viés, a insuficiente adesão de pessoas a essa causa nobre corrobora a existência de mitos , como o uso dos órgãos para tráfico , os quais permanecem naturalizados no imaginário coletivo. Essa situação desafiadora aliada à falta de esclarecimento da população dificulta a adesão de colaboradores , uma vez que os “ídolos” – como discutido por Bacon – limitam o pensamento social diante da realização de atitudes mais empáticas e éticas.

Além disso, deve-se analisar como a defasagem dos sistemas de transplantes colabora com o aumento da fila de espera por um órgão. Nessa perspectiva, pontua-se que os hospitais brasileiros, especialmente os pertencentes ao Sistema Único de Saúde (SUS) , são desassistidos de recursos técnicos e equipes profissionais especializadas para o transplante de órgãos. Sob esse enfoque, a série americana “Grey’s Anatomy” mostra os desafios, referentes à estrutura hospitalar , enfrentados pela equipe médica para transplantar. Diante disso, é notório que mesmo em grandes centros hospitalares , como os dos Estados Unidos , existem obstáculos – de ordem técnica ou profissional – para ofertar melhores condições de vida aos pacientes , devido não somente à falta de infraestrutura , mas também de recursos humanos.

É indispensável , portanto ,a superação dos desafios referentes à informatização social e a estrutura hospitalar para transplantes. Para tanto, o Ministério da Saúde, na postura de órgão responsável pela elaboração de políticas de saúde, deve desenvolver campanhas educativas e palestras, ministradas por médicos a respeito da importância da doação de órgãos para a vida de muitos brasileiros. Essa ação deve ser realizada por meio de um projeto de extensão nacional , em que além do enfoque educativo , seja realizada a capacitação de profissionais e instituições de assistência hospitalar , com o objetivo de aumentar o número de transplantes e doadores . Se assim for feito, a espera por um órgão deixará de ser uma realidade compartilhada pelo Boneco de Lata e tantos brasileiros.