Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 11/11/2021

Em um dos episódios da série “Sob Pressão”, é retratada a realidade do processo de doação de órgãos no Brasil. Nesse sentido, a trama explora as dificuldades que deterioram tal processo. Fora da ficção, pode-se observar que a situação apresentada na obra pode ser relacionada ao hodierno cenário brasileiro que, em razão da desinformação e da falta de preparo -por parte de alguns médicos- ao tratar de tal assunto com as famílias, dificulta a transferência de órgãos. Logo, são primordiais ações sociais e estatais na contenção dessa adversidade, sob pena de prejuízo à saúde pública.

Em primeiro plano, é imperioso salientar que, infelizmente, grance parcela do corpo social -ainda- permance alheia ao funcionamento do processo de doação, o que possibilita a absorção e a propagação de informações inverídicas. Sob esse viés, o sociólogo espanhol Manuel Castells afirma, em suas inúmeras palestras, que o mundo vive “um momento de ataque à razão e de posições irracionais contra a ciência”, ou seja, independente do fato ser comprovado cientificamente, ele não é considerado pela coletividade. Dessa forma, percebe-se que um número significativo de indivíduos, em função do desinformação, não consideram, por exemplo, a morte cerebral como irreversível, negando a possibilidade de efetivar uma das práticas mais relevantes para a humanidade: doar órgãos.

Ademais, pode-se perceber a falta de preparo de alguns funcionários médicos- os quais se utilizam de métodos coercitivos- ao abordarem a família da vítima e incentivá-la a autorizar a doação de órgãos. Segundo o filósofo Immanuel Kant, em sua teoria do Imperativo Categórico, os indivíduos devem ser tratados não como coisas que possuem valor, mas como pessoas que têm dignidade, todavia é notório que alguns médicos atuam de modo contrário ao postulado, exigindo a autorização da família de maneira agressiva. Assim, é necessário uma mudança de postura dos funcionários dos hospitais brasileiros, haja vista que um comportamento despreparado e ofensivo vai de encontro ao Princípio da Dignidade Humana, elencado no artigo 3 da Carta Magna.

Portanto, a fim de democratizar o acesso ao fucionamento acerca do processo de doação de ógãos na nação verde-amarela, urge que o Ministério da Saúde, órgão responsável pela assistência à saúde dos brasileiros, invista, por intermédio da realização de campanhas publicitárias, no esclarecimento sobre a importância e a necessidade de tal processo. Somado a isso, compete ao Conselho Federal de Medicina a discussão em relação ao modo de abordar as famílias e o treinamento dos profissionais médicos, com o escopo de garantir um tratamento mais humanitário. Somente assim, poder-se-á contribuir para combater os desafios que dificultam o processo de doação de órgãos e contribuir para que o drama narrado em “Sob Pressão” seja, em breve, apenas ficção.