Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 04/06/2022

Num dos episódios da série estadunidense “Grey’s Anatomy”, os pais de duas jovens diagnosticadas com morte cerebral, em decorrência de um acidente de carro, negaram à equipe médica do Hospital Seattle Grace a retirada dos órgãos de suas filhas. Analogamente à ficção, no Brasil, também se observam dilemas que enleiam a realização de tais doações. Nesse contexto, a precariedade da infraestrutura médico-hospitalar e a ignorância populacional sobre essa prática constituem os principais entraves a serem transpostos.

A priori, é imperioso ressaltar que as fissuras no sistema de saúde público comprometem o êxito dos procedimentos supracitados. Sob esse viés, cumpre destacar que, segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos, o país desperdiça ao menos 50% dos órgãos aptos para transplante. Nesse sentido, a subnotificação dos casos de perda de funções cerebrais, o despreparo da equipe médica e a impossibilidade de manutenção dos potenciais doadores constituem a gênese da problemática. Dessa forma, faz-se impreterível a intervenção estatal de modo a sanar as irregularidades basilares em questão.

Outrossim, cabe salientar que a insipiência dos cidadãos em relação às condições de concessão de constituintes corporais reforça o problema. Sob esse prisma, levantamentos realizados pela clínica sul-rio-grandense iSaúde apontam que a dificuldade de compreensão da morte encefálica é um dos principais motivos para a não autorização da família a respeito da doação. Além disso, o desconhecimento da parentela acerca do desejo, em vida, do ente de ser um doador fomenta tal repúdio. Dessa forma, obstaculiza-se o salvamento de pacientes que aguardam nas intermináveis filas de transplante.

É evidente, portanto, que carências estruturais e o obscurantismo social fomentam a mazela. Urge, então, que o Ministério da Saúde - responsável pelo sistema de saúde nacional - promova o aperfeiçoamento da infraestrutura hospitalar, por meio da renovação de equipamentos e do fornecimento de cursos de capacitação profissional, a fim de garantir o aproveitamento dos órgãos para transplante. Ademais, é mister a divulgação de informações e campanhas de incentivo à doação nos meios midiáticos. Dessarte, poder-se-á mitigar esse flagelo.