Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 13/09/2023
A teoria do Princípio da Utilidade, de John Mill, desenvolve a hipótese moral de que ações devem ser tomadas de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar. Entretanto, a realidade se mostra discrepante, considerando a problemática em torno da doação de órgãos, uma ação capaz de salvar vidas. Nesse sentido, são imperiosas as discussões relativas à negligência por parte do estado e da sociedade.
Em primeiro lugar, é necessário reconhecer o papel do Estado como perpetuador dessa situação. A alta demanda em relação aos transplantes contrasta com a excessiva desinformação referente às regras e ao protocolo de doação visto que, segundo a Associação Brasileira de Transporte de Órgãos, cerca de 43% das famílias recusam a autorizar o procedimento. Tal fator é motivado pela carência de informação acerca do problema em questão, fazendo com que o tópico abra espaço para a materialização de inseguranças ao redor do processo em momentos de perda e instabilidade emocional.
Outrossim, é preciso compreender o impacto da sociedade na perpetuação desse dilema. Análogo a isso, o sociólogo Zygmunt Bauman descreve uma modernidade líquida, caracterizada pela instabilidade das relações sociais e estruturas institucionais. Sujeitando a população a mudanças rápidas e fragmentação nas esferas da vida social, as normas e os valores se tornam superficiais, agravando a alienação no meio intrapessoal. Dessa forma, o individualismo e o imediatismo consequentes dificultam a disseminação de gestos altruístas que visam o bem maior, como a doação de órgãos.
Logo, em fins de mitigar o problema, é inevitável que os Ministérios da Saúde e das Comunicações trabalhem em conjunto para elaborar um plano de conscientização sobre a realidade das pessoas que necessitam de transplantes. Eles devem transmitir a mensagem através de redes sociais, propagandas televisionadas e palestras públicas, assim a população será instruída por explicações dos profissionais de saúde, favorecendo o desenvolvimento da empatia por parte das pessoas. Dessa maneira, será possível a realização do Princípio da Utilidade, promovendo o bem-estar social.