Direitos da terceira idade: Como enfrentar esse desafio nacional?
Enviada em 30/09/2019
Mocinha - personagem de Clarice Lispector - é descrita como uma: “Velhinha sequinha que, doce e obstinada, não parece compreender que estava só no mundo.” A frase da célebre escritora por si só já demonstra a solidão que a personagem sofria, no entanto o conto ainda retrata o descaso, o abandono e a invisibilidade da protagonista à frente de estranhos e inclusive sua própria família. Apesar do conto ser de 1964, a situação é análoga a realidade da população idosa no Brasil. Diante disso, convém refletir em medidas que resolvam essa problemática.
Convém ressaltar, a princípio, o caráter excludente da sociedade capitalista com as pessoas mais velhas. Dado que, as descartam como um objeto depois delas terem contribuído com a sociedade na sua juventude. Tal fato, consoante ao pensamento de Zygmunt Bauman, reflete a falta de alteridade e o individualismo, que é a ausência da capacidade de se colocar no lugar de outrem e só pensar em si mesmo. Desse modo, as pessoas de mais idade se sentem excluídas da dinâmica social, o que gera discriminação, preconceito e traumas psicológicos oriundos do descaso familiar, do estado e da sociedade.
Ademais, é importante citar a negligência do governo com o Artigo 3º e 4º da Constituição Federal que assegura respeito e proteção para com a população acima de 60 anos. Essa conjuntura, segundo o contratualista John Locke, configura uma quebra do “contrato social” e é prejudicial para a coletividade. Visto que, o Estado não consegue garantir igualdade entre os membros da sociedade e não cumpre sua função de possibilitar que os cidadãos desfrutem de direitos fundamentais, como o da dignidade. Consequentemente, o idoso acaba sendo exposto à uma condição de desamparo.
Diante dos fatos supracitados, é necessário que o governo por intermédio do Ministério da Educação, promova aulas extracurriculares que proporcionem um maior contato intergeracional, por meio de palestras, materiais históricos e produções culturais. Com o objetivo de aumentar a participação ativa dos idosos na sociedade, na construção do conhecimento dos jovens e principalmente desconstruir preconceitos equivocados. Ademais, cabe ao Poder Executivo, na voz das prefeituras, a construção de locais onde os idosos possam socializar, com vistas à promoção do bem-estar social. E assim, com a efetividade de tais medidas, “as Mocinhas” da vida real sairão da invisibilidade e desfrutarão de uma terceira idade digna.