Discussão acerca da apropriação cultural
Enviada em 04/10/2018
Apropriação cultural: a mercantilização de objetos cujo significado transcende a sua forma física
Historicamente, dos romanos ao imperialismo europeu, a colonização sempre envolveu a eliminação de simbologias que pudessem dificultar a hegemonia cultural do conquistador. Esse processo está na gênese da atual discussão acerca da apropriação cultural. Para entender essa questão é necessário compreender, sobretudo, que o a cultura representa, muitas vezes, uma forma de resistência e que a mercantilização desses símbolos retira o seu significado.
Primeiramente, cabe destacar que para algumas culturas seus objetos transcendem a sua utilidade material e representam uma forma de manter vivas as suas tradições. A relação do turbante com a população negra ilustra esse aspecto: no processo de escravização, os africanos não só foram obrigados a se converter ao catolicismo, como eram duramente castigados quando ostentavam adereços que remetiam a sua religião originária, como o turbante. Logo, quando negros usam essa vestimenta, mais do que uma opção estética, esse ato simboliza a resistência.
Em segundo lugar, o modo de produção capitalista, como já fora identificado por Karl Marx, retira o simbolismo desses objetos transformando-os em meras mercadorias. Exemplo disso se deu quando a marca “Farm” lançou uma coleção de peças – dentre as quais se incluíam turbantes – inspiradas na arte africana e estampou na capa da coleção uma garota branca vestida de Iemanja. Ou seja, a empresa não só se apropriou de um dos símbolos contra a opressão da população negra para gerar lucro, como deturpou todo o contexto histórico da cultura afro ao utilizar uma modelo branca no papel de uma divindade da umbanda e candomblé.
Infere-se, portanto, que, em respeito às tradições dos diferentes povos, é imprescindível o combate à apropriação cultural. Visando a esse objetivo, faz-se necessário que a sociedade civil exerça seu poder de consumidor boicotando produtos cuja produção ou marketing se aproprie de símbolos importantes na identificação de qualquer cultura. Por meio desse boicote, será possível fazer com que empresas que não respeitem a cultura alheia por princípios, o façam por prejuízos financeiros. Dessa forma, evitar-se-á a mercantilização de objetos cujo significado transcende a sua forma física.