Discussão acerca da apropriação cultural
Enviada em 29/10/2018
O Triste Fim de Policarpo Quaresma, obra pré-modernista de Lima Barreto, retrata a trajetória do sub-secretário do Arsenal da Guerra, Policarpo Quaresma. Dada produção é dividida em três projetos políticos do personagem, nacionalista, agrícola e político, sendo o primeiro caracterizado pela busca incansável das raízes brasileiras, no qual Quaresma acaba por apropriar certos elementos da cultura indígena. Todavia, tal romance evidencia bem a apropriação cultural no Brasil, fenômeno definido pela incorporação de elementos de uma cultura por outra, que teve um aumento substancial no início do século XXI. Decerto, é inegável a existência de tal problemática e sua persistência no pensamento brasileiro é devido, sobretudo, a uma visão etnocêntrica aliada a um caráter de comercialização. Mormente, o surgimento de tal questão está relacionado com um etnocentrismo intrínseco no ideal brasileiro. Sob tal ótica, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer afirma que todo homem toma os limites de seu próprio campo de visão como os limites do mundo. De maneira análoga, é correto afirmar que o Brasil é alicerçado numa visão etnocêntrica que permitiu o surgimento da apropriação cultural como uma forma de demonstrar a superioridade da cultura majoritária na sociedade ao, por exemplo, banalizar o uso das tradições por ela incorporadas, como retratado na obra supracitada na qual Quaresma acaba utilizando de acessórios culturais indígenas de forma errada e, com isso, desrespeita a cultura daquele grupo.
Outrossim, com a consolidação do sistema capitalista no globo e no país, um sentimento de comercialização de tudo, inclusive de culturas, visando o lucro estabeleceu-se. Nesse contexto, o sociólogo alemão Karl Marx defendia a tese de que o capitalismo se caracteriza pela exploração da sociedade em busca do que ele chamou de mais-valia e tal conceito relaciona-se com a questão abordada. Dessa forma, a chamada Indústria Cultural aproveitou-se do sentimento de superioridade cultural intrínseca no pensamento nacional para incentivar a incorporação de tradições de outras sociedades a fim de que possa, dessa maneira, lucrar.
Infere-se, portanto, que a apropriação cultural no Brasil é reflexo de um pensamento alicerçado no etnocentrismo aliado a uma comercialização. Todavia, é fulcral a desconstrução desse ato e, por isso, cabe ao Ministério da Cultura que, em conjunto com o Ministério da Educação, promovam atos em escolas de todo o país, por meio de campanhas educacionais caracterizadas por apresentação de elementos dos diversos grupos que compõem a sociedade brasileira, a fim de que que desconstrua essa ideologia arcaica desde a infância e que se valorize esses elementos tradicionais. Destarte, a apropriação cultural deixará de ser uma realidade no país.